EFE/EPA/Doug Mills / POOL
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Crise em Gaza põe em xeque acordos de paz da era Trump; leia análise

Derramamento de sangue trouxe à tona novas dúvidas a respeito do custo dos pactos diplomáticos conhecidos como Acordos de Abraão e coloca em dúvida a disposição de outros Estados árabes de assinar pactos similares.

Kareem Fahim, Sarah Dadouch / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2021 | 05h00

ISTAMBUL - Vídeos registrados em Jerusalém Oriental que mostram a polícia israelense prendendo violentamente manifestantes uniram o mundo árabe, evocando tanto a solidariedade quanto uma antiga raiva contra a injustiça, a expropriação e a discriminação.

Mas o embaixador dos Emirados Árabes Unidos, recém-chegado a Israel, escreveu para um site israelense de notícias na semana passada, enquanto as imagens circulavam, narrando uma versão menos negativa da vida em seu novo lar. Ele descreveu um lugar onde culturas e religiões coexistem harmoniosamente, num Oriente Médio tranquilizado pelos acordos diplomáticos que normalizaram as relações entre Israel, seu país e outros Estados árabes.

As observações do diplomata pareceram perigosamente fora da realidade dos dias recentes, que viram a mais mortífera conflagração entre Israel e os palestinos em anos. O derramamento de sangue trouxe à tona novas dúvidas a respeito do custo dos pactos diplomáticos assinados pelos Emirados Árabes Unidos e outros países, conhecidos como Acordos de Abraão, e coloca em dúvida a disposição de outros Estados árabes, como Arábia Saudita, de assinar pactos similares com Israel.

Os proponentes dos acordos prometeram que conduziriam uma nova era de paz no Oriente Médio. Em vez disso, a região ferveu em protestos nos dias recentes, jorrando nas redes sociais uma repulsiva torrente informando cada vez mais mortes de palestinos, mostrando os ataques de Israel contra a venerada Mesquita de Al-Aqsa e os bombardeios dos aviões israelenses derrubando prédios de apartamentos em Gaza.

Essa fúria, afirmaram analistas, abala profundamente uma pressuposição central aos acordos: de que o mundo árabe não se importava mais com o sofrimento dos palestinos e estava tranquilo em permitir que seus governos aceitassem Israel com base em outros interesses mútuos.

Os acordos, assinados no ano passado, durante o governo Trump, foram “fundamentados por uma percepção de que os palestinos não estavam se mobilizando”, o que permitiu aos signatários estabelecer pactos que, não fosse por isso, teriam desencadeado indignação pública, afirmou Tareq Baconi, analista do centro de estudos International Crisis Group. Mas agora as coisas mudaram, observou ele. “Os palestinos estão se mobilizando.”

Como resultado, demonstrações de solidariedade aos palestinos ocorreram em todo o mundo árabe, incluindo no Bahrein e no Marrocos, dois países que também assinaram os acordos diplomáticos com Israel. Na Arábia Saudita, que recentemente sinalizou uma aproximação com Israel, já que ambos os países confrontam o Irã, um inimigo em comum, houve uma súbita mudança de tom nos jornais que apoiam o governo.

Um editorial desta semana do jornal saudita Al-Jazirah acusou Israel de “atos criminosos” contra os palestinos, comparando o comportamento do país ao do Irã.

A elevação constante das mortes em Gaza e Israel também minou a percepção de que a normalização diplomática entre ele e países como os Emirados Árabes Unidos daria mais poder aos países árabes para impedir os recorrentes episódios de violência. Até sexta-feira, pelo menos 115 palestinos, entre eles 27 crianças, tinham sido mortos pelos bombardeios de Israel contra a Faixa de Gaza. E ataques de foguetes de militantes palestinos mataram sete cidadãos israelenses.

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Nos meses finais do governo Trump, Israel firmou acordos que estabeleceram a normalização completa ou parcial de relações diplomáticas com Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos. Na cerimônia de assinatura, em Washington, em setembro, o ex-presidente Donald Trump afirmou que os acordos “mudariam o rumo da história”.

Os signatários estavam “escolhendo um futuro no qual árabes e israelenses, muçulmanos, judeus e cristãos podem viver juntos, rezar juntos e sonhar juntos, lado a lado, em harmonia, comunidade e paz”, afirmou ele.

Críticos notaram que alguns dos acordos foram negociados por governos autoritários que não representam a vontade de seus cidadãos e foram concluídos somente após incentivos dos americanos que alguns qualificaram como propinas.

E os palestinos viram os pactos como um marco perigoso. Os acordos sinalizaram para o abandono, por parte dos países árabes, de uma iniciativa de paz originalmente proposta pela Arábia Saudita décadas antes, que condicionava o estabelecimento de relações diplomáticas plenas entre Estados árabes e Israel a um acordo de paz entre Israel e os palestinos.

Mesmo assim, havia a percepção entre observadores internacionais e os habitantes da região de “que se um Estado como os Emirados Árabes Unidos estava normalizando as relações, certamente os palestinos fariam parte disso” e de que os Emirados Árabes Unidos seriam capazes de usar o acordo para avançar com os interesses dos palestinos, afirmou Baconi.

Mas esses sentimentos eram “exagerados”, acrescentou ele. “Isso não tinha nada a ver com os palestinos. Era um pacto militar, econômico e diplomático entre duas potências da região”, afirmou ele, referindo-se ao acordo específico entre Israel e Emirados Árabes Unidos. “Os palestinos eram um efeito colateral.”

Ainda assim, o atual derramamento de sangue pode ter deixado os signatários dos Acordos de Abraão se sentindo expostos. Dias após a publicação do otimista artigo do embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Israel, Mohamed al-Khaja, o governo do país árabe endureceu bastante o tom, um sinal de que não conseguia mais se mostrar indiferente à crescente revolta.

Um comunicado pediu que “as autoridades israelenses assumissem a responsabilidade de pôr fim na violência, encerrar todos os ataques e práticas que ocasionaram a continuidade das tensões e preservar a identidade histórica da Jerusalém ocupada”.

Essa mudança de posicionamento “mostra que a questão palestina não está fora da agenda da região, muito pelo contrário”, afirmou Baconi. Governos árabes também se colocaram na defensiva em razão do ataque israelense contra a Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, que deixou centenas de palestinos feridos, um ataque contra um dos mais reverenciados lugares do Islã, realizado durante o mês sagrado de Ramadã.

Depois do ataque contra Al-Aqsa, “o Hamas se posiciona para conquistar popularidade enquanto face da resistência palestina”, afirmou Baconi. “Essa é a última coisa que os Emirados Árabes Unidos - que consideram movimentos islamistas seus principais adversários - esperavam que se materializasse”, afirmou ele.

A Arábia Saudita não normalizou as relações com Israel, mas o reino era tido amplamente como o próximo na fila. Parte dessa especulação transbordou numa crescente disposição, iniciada no ano passado, de permitir críticas contra a liderança palestina - expressa em editoriais de jornais e entrevistas de importantes personalidades sauditas. Riad também elogiou os Acordos de Abraão.

Esse tom amigável em relação aos pactos diplomáticos também mudou de direção na semana passada. Um artigo de Talal Bannan, um especialista em ciência política, que foi publicado no popular jornal diário saudita Okaz, qualificou Israel como um “ente racista e repleto de ódio”, que garante sua sobrevivência “por meio de agressões, racismo e usurpação de território”.

O autor alertou que, quando Estados árabes assinam pactos de paz, estão sinalizando uma disposição de “estar em acordo com o comportamento agressivo de Israel e tolerar sua estratégia expansionista”.

No estritamente controlado ambiente dos meios de comunicação sauditas, esse artigo - e outros textos do tipo - não seria publicado sem a aprovação do governo, o que evidencia uma tensão entre o aparente desejo de Riad de normalizar as relações com Israel e a necessidade do reino de responder à indignação de seu povo a respeito das mortes de cada vez mais palestinos.

Em um comunicado, na terça-feira, o Ministério de Relações Exteriores saudita condenou “nos termos mais duros os ostensivos ataques da ocupação israelense contra a santidade da sagrada Mesquita de Al-Aqsa e contra a segurança dos fiéis”. Na noite da quinta-feira, as duas hashtags mais populares na Arábia Saudita eram "#IsraelTerrorista" e uma frase que um porta-voz do Hamas dirigiu a Israel esta semana: “Para nós, bombardear vocês é mais simples do que beber água.”

A liderança saudita tem consciência do enorme apoio de seu povo aos palestinos e sabe que qualquer mudança oficial de política a favor da normalização de relações com Israel seria uma medida impopular, afirmou Elham Fakhro, analista sênior de Golfo Pérsico do International Crisis Group. Mas inaugurar relações diplomáticas com Israel era provavelmente apenas uma questão de tempo, e qualquer atraso nesse processo seria decorrente de um desejo da liderança saudita de “obter concessões que fariam essa decisão valer a pena”, afirmou ela.

“A Arábia Saudita tem consciência de que é importantíssima para Israel”, disse Fakhro.

Por agora, porém, é improvável que Riad influencie de qualquer maneira o comportamento de Israel em relação aos palestinos. “Israel não depende de nenhuma maneira dos sauditas e não mudará absolutamente seu comportamento com base no que eles pensam”, afirmou Fakhro. “E os outros países do golfo também não se importam muito com os palestinos”, disse ela a respeito dos líderes da região. “É uma indiferença mútua.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

*Dadouch colaborou de Beirute.

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