Crise em Gaza será duro teste para Hillary

Escalada de violência colocará à prova seu poder de negociação

Fernando Dantas, Washington, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

Da mesma forma que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, a futura secretária de Estado, Hillary Clinton, teve seu espaço de manobra dramaticamente reduzido com os violentos bombardeios israelenses contra a Faixa de Gaza, que já deixaram mais de 380 mortos, em reação aos foguetes lançados pelos militantes do grupo islâmico palestino Hamas contra o sul de Israel. Hillary tem algum cacife para tentar ganhar a confiança dos palestinos e dos árabes em geral, como mulher do ex-presidente Bill Clinton, que nos anos 90 conduziu o último grande e sério esforço de paz entre os dois inimigos. Mas o problema é que, em linha com a posição hegemônica no Partido Democrata, a futura secretária de Estado adotou nos últimos anos, sem titubear, o discurso do direito de defesa de Israel. Em 2006, no calor da fracassada e impopular campanha israelense contra o Hezbollah no Líbano, a senadora por Nova York declarou que apoiava "totalmente o direito de Israel defender-se".A escalada do confronto em Gaza deve obrigar Hillary a posicionar-se em curtíssimo espaço de tempo. A opção de confirmar o apoio incondicional a Israel seria, na prática, dar continuidade à política de George W. Bush, o oposto do que o governo Obama se propôs a fazer. Para credenciar-se como interlocutora confiável dos palestinos, a futura secretária de Estado terá de emitir algum sinal de mudança na política externa americana. Uma opção óbvia, e até tímida, seria a de manifestar desconforto com a escala da reação israelense. Mas mesmo isso já significaria bater de frente com a posição pró-Israel dominante na política americana, e seria uma reviravolta significativa na própria posição de Hillary. "Quando vejo o tipo de gente que está em volta de Obama, constato que são os melhores amigos de Israel, que não ousam tomar distância das posições do governo israelense", disse à agência Reuters o cientista político Mustapha al-Sayed, da Universidade do Cairo, referindo-se especificamente à escolha do judeu Rahm Emanuel como chefe de Gabinete e de Hillary como secretária de Estado.Alguns analistas, porém, acham que a futura secretária de Estado tem condições de ganhar a confiança dos palestinos. Aaron Miller, que já assessorou seis secretários de Estado americanos, não concorda com a idéia de que Hillary seja vista como uma ferrenha defensora de Israel entre os árabes. Para ele, "Bill Clinton tem uma imagem muito mais positiva no Oriente Médio, e Hillary é vista do mesmo jeito".Hillary, de fato, tem um histórico que pode permitir a interposição de nuances em sua defesa de Israel, para diferenciar-se do governo Bush. Numa visita histórica à Faixa de Gaza em 1998, ela cautelosamente fixou sua posição favorável ao Estado palestino, o que foi suficiente para que fosse aplaudida calorosamente no Conselho Nacional Palestino, ao ser apresentada pelo mítico líder da Organização pela Liberação da Palestina (OLP), Yasser Arafat. Por enquanto, de forma similar ao presidente eleito, Hillary não se manifestou nem tentou interferir na forma como o governo Bush vem reagindo ao novo conflito entre Israel e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza. Esta confortável neutralidade, porém, tem dia certo para acabar: 21 de janeiro, o primeiro dia de trabalho efetivo do governo Obama, depois da posse no dia 20.

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