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Crise entre EUA e Venezuela ofusca ida de Cuba à Cúpula das Américas

Imposição de sanções contra indivíduos ligados ao chavismo dá ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro, discurso contra americanos; disputa entre Washington e Caracas cria situação ‘desconfortável’ para Havana em sua 1ª participação no evento

Cláudia Trevisan, correspondente/Washington, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2015 | 22h00


A aguardada estreia de Cuba na Cúpula das Américas, na próxima semana, pode ser ofuscada pelo enfrentamento entre Venezuela e EUA e a insistência do presidente Nicolás Maduro em obter uma declaração que condene as sanções impostas por Washington a sete autoridades do país acusadas de violação de direitos humanos e corrupção.

A maioria dos países da região, entre os quais o Brasil, gostaria de manter o assunto em segundo plano e focar a atenção na presença de Raúl Castro entre os 35 líderes do continente que se reunirão no Panamá, dias 10 e 11. Será a primeira participação de Cuba em uma Cúpula das Américas e a primeira interação oficial do país com todo o continente no âmbito de uma instituição regional desde sua suspensão da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1962.

Apesar de as sanções americanas atingirem apenas sete indivíduos, sua linguagem deu a Maduro uma bandeira contra Washington. Para impor as penalidades, o presidente Barack Obama cumpriu o protocolo legal de declarar Caracas uma “ameaça” à segurança nacional do país. Maduro usou a expressão para denunciar uma suposta intenção dos EUA de invadir a Venezuela e derrubar seu governo.

O enfrentamento entre Washington e Caracas coloca Cuba em uma situação “desconfortável”, avalia Harold Trinkunas, diretor do programa sobre América Latina do Brookings Institution. Segundo ele, Havana terá de encontrar um equilíbrio entre a aproximação com os EUA e a lealdade com a Venezuela.

No Panamá, Maduro pretende entregar a Obama um abaixo-assinado com milhões de adesões pedindo a revogação das sanções impostas no dia 9 de março. Roberta Jacobson, secretária assistente para as Américas do Departamento de Estado, diz que as penalidades não afetam a economia nem o governo venezuelano. “A questão das sanções contra sete indivíduos assumiu proporções exageradas”, disse ela, na sexta-feira. 

Antes do anúncio das medidas, a expectativa era que o ponto alto do evento seria a presença de Obama e Castro na mesma mesa de discussões. Jacobson não revelou se os dois presidentes terão encontros reservados, mas disse que haverá “interação” entre ambos. Com o agravamento da tensão entre Washington e Caracas, não está claro qual será o foco da cúpula.

“Há um risco real de alguns países da região tentarem amplificar as divergências entre EUA e Venezuela para fazer disso a principal história da cúpula. Seria um erro”, disse ao Estado Eric Farnsworth, vice-presidente do Council of the Americas. Em sua opinião, outros países da região terão de desempenhar o papel que o rei espanhol Juan Carlos teve na Cúpula Ibero-Americana de 2007, quando tentou conter o ex-presidente Hugo Chávez com a frase “Por que não se cala?”

A insistência de Caracas em que a declaração final do encontro contenha críticas às sanções dos EUA impediu até agora a aprovação de um texto de consenso. Se o impasse não for solucionado, o encontro do Panamá pode repetir as duas cúpulas anteriores e terminar sem uma declaração dos líderes da região.

O presidente da OEA, José Miguel Insulza, esperar que as nações superem suas divergências e assinem um documento conjunto. Segundo ele, a Venezuela apresentou “no último momento” a proposta de mudança no projeto de resolução. Insulza, porém, lembrou que não ter uma declaração conjunta “não é um drama”. Nos últimos dois encontros, na ausência de um documento conjunto, os presidentes dos países-sede divulgaram declarações que reuniam os consensos alcançados e excluíam as divergências. O mesmo pode ocorrer no Panamá, caso Maduro mantenha sua posição.

Muito do destaque que enfrentamento entre Washington e Caracas receberá depende de Cuba. No dia 17 de março, Castro fez um discurso contundente contra as sanções a Caracas. “Os EUA devem entender uma vez por todas que é impossível seduzir Cuba e intimidar a Venezuela, já que nossa unidade é indestrutível”, afirmou.

“Havana e os demais países da região, porém, não desejam que o enfrentamento esteja no centro da cúpula”, afirmou Peter Hakim, presidente emérito do Diálogo Interamericano. “Os países da América Latina estão muito satisfeitos com a mudança da política americana para Cuba. Não creio que gostariam que isso fosse diminuído pela questão da Venezuela.”Jacobson declarou que os EUA não pretendem colocar em pauta a situação da Venezuela, mas querem discutir as questões de democracia e direitos humanos, dois temas nos quais Caracas tem se desviado dos padrões vistos como desejáveis pelos americanos. “Há desafios reais para a democracia na Venezuela e toda a região deveria estar preocupada com isso”, disse. “Isso nunca foi e nunca será uma questão bilateral. É uma questão hemisférica. Mas, acima de tudo, é uma questão da Venezuela.”

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