Crise entre palestinos se agrava, e Fatah deixa governo

Ministros do partido laico decidiram suspender temporariamente participação no gabinete de união com o Hamas; violência já deixou 37 mortos nos últimos dias

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 02h47

Os ministros do gabinete palestino ligados ao partido laico Fatah suspenderam nesta terça-feira, 12, sua participação no governo de união nacional com o grupo islâmico Hamas até que a violência entre as duas facções chegue ao fim. A decisão, que foi tomada pelo comitê central do Fatah em uma reunião de emergência na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, reflete o acirramento do conflito entre os dois grupos, que atingiu seu auge nesta terça-feira. Segundo contagem da Associated Press, a espiral de violência já deixou 37 mortos nos últimos dois dias. A decisão do Fatah, entretanto, não representa uma posição definitiva do grupo. De acordo com um porta-voz do partido, o objetivo é suspender as atividades governamentais até que um cessar-fogo seja alcançado. Os dois grupos rivais dividem o poder no gabinete palestino desde março, quando o Fatah e o Hamas concordaram em formar um governo de união com o objetivo de conquistar legitimidade internacional. Mas, com os confrontos dos últimos dias, uma reconciliação entre os dois grupos parece cada vez mais insustentável. Nesta terça-feira, centenas de combatentes do Hamas armados com lançadores de foguetes e morteiros invadiram e ocuparam o quartel-general das forças de segurança ligadas ao Fatah no norte da Faixa de Gaza. Para membros nos dois lados do conflito, a situação já caracteriza uma guerra civil.Os embates desta terça-feira são um ponto de virada na briga de poder que atinge os territórios palestinos desde que o Hamas chegou ao poder, em janeiro do ano passado. Com uma estratégia agressiva, o grupo islâmico avançou sistematicamente sobre a maioria das posições do Fatah na Faixa de Gaza. Em alguns momentos, as táticas empreendidas pelos dois lados foram brutais: combatentes foram executados nas ruas, hospitais invadidos e militantes arremessados do alto de prédios.Um sobrevivente da investida do Hamas contra o quartel-general do Fatah no norte de Gaza disse que as forças leias ao grupo - cujo principal líder é o presidente palestino, Mahmoud Abbas - ficaram encurraladas, e que o reforço nunca chegava. "Eles não tiveram misericórdia. Era boom, boom, boom! Eles tinham morteiros capazes de atingir quase metade do complexo", disse, ofegante, o combatente do Fatah, que se identificou apenas como Amjad.Dia de guerraA situação se repetiu em praticamente toda a Faixa de Gaza. Em uma tentativa desesperada de levantar o moral do Fatah, forças leais ao grupo tentaram atacar a principal rede de TV do Hamas, mas foram expulsas após um duro confronto. Depois do incidente, a emissora transmitiu imagens de supostos membros do Fatah capturados durante a investidas. Alguns tinham filetes de sangue escorrendo por seus rostos.Na Cisjordânia, Abbas encontrou-se com líderes do Fatah, que pediram ao presidente palestino que abandone o governo de coalizão e declare estado de emergência ou convoque novas eleições. Nenhuma das opções foi adotada, uma vez que ambas poderiam resultar em mais violência.Em Jerusalém, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, pediu a intervenção de países árabes no conflito, e o posicionamento de uma força internacional na fronteira entre Gaza e o Egito. A região é rota para a entrada de armamentos no território palestino. Olmert, entretanto, rejeitou qualquer intervenção israelense no conflito.O Hamas e o Fatah estão em uma disputa de poder desde janeiro de 2006, quando o grupo islâmico conquistou maioria no parlamento e elegeu Ismail Haniye como primeiro-ministro. O Hamas é classificado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos, União Européia e Israel, e sua chegada ao governo resultou no congelamento de todos os repasses ao governo da Autoridade Nacional Palestina. Em busca de uma solução para a crise humanitária que atingiu os territórios palestinos, os dois grupos chegaram a um acordo para a formação de um governo de união nacional em março deste ano, em uma tentativa de conquistar maior legitimidade internacional. A medida, entretanto, não foi capaz de conter o derramamento de sangue, que voltou com força renovada no final de maio.

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