Channi Anand/AP
Channi Anand/AP

Crise entre Paquistão e Índia sobre Caxemira afeta cotidiano

Filmes de Bollywood foram banidos por Islamabad e o serviço de trem, suspenso

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2019 | 20h13

ISLAMABAD - Sem virar filme, a disputa entre Índia e Paquistão sobre a Caxemira foi parar no cinema. Islamabad anunciou nesta quinta-feira, 8, que proibirá a exibição no país dos tradicionais filmes de Bollywood – a indústria cinematográfica indiana. Também vai suspender o principal serviço de trem entre os dois países. As medidas são parte da pressão diplomática do Paquistão sobre a Índia, que nesta semana revogou o status especial da Caxemira, uma região que está no coração da hostilidade entre as duas potências nucleares há 70 anos. 

Desde domingo, a Índia suspendeu os serviços de telefonia móvel e internet e proibiu reuniões públicas em Srinagar, capital de verão da Caxemira, depois de privar o Estado de maioria muçulmana do direito de formular as próprias leis e revogar uma proibição de décadas que impedia pessoas que não moram na região de comprar propriedades ali.

O governo nacionalista hindu do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, também dividiu o Estado em dois territórios federais para permitir maior controle, um movimento que os líderes regionais chamaram de mais uma humilhação.

Os moradores da Caxemira veem a decisão de Modi como uma quebra de confiança que abre caminho para sua região ser inundada por pessoas do restante do país, o que pode acabar alterando sua demografia.

Na quarta-feira, o governo do Paquistão reduziu as relações diplomáticas com a Índia e suspendeu o comércio entre eles. Autoridades da Índia detiveram ontem ao menos 300 políticos e separatistas da Caxemira, em uma das maiores operações de repressão em anos. 

Ainda que o governo paquistanês tenha descartado ontem a possibilidade de uma resposta militar, os custos do conflito podem resultar em instabilidade regional, militarização e crise econômica. Mas a decisão de proibir filmes da Índia está longe de ser uma retaliação branda. 

Em 2016, após um ataque militante contra uma base do Exército indiano que matou 19 soldados, a Índia culpou o grupo Jaish-e-Muhammad, com base no Paquistão. As tensões entre os dois países levou a associação de produtores de filmes indianos a proibir artistas paquistaneses de trabalhar em filmes indianos. No Paquistão, os proprietários de cinema decidiram não exibir mais filmes indianos.

Em um artigo no New York Times, o diretor de cinema e especialista britânico-paquistanês Mazhar Zaidi afirmou que, na época, dentro de três meses, a venda de ingressos para o cinema no Paquistão foi reduzida a 11%. O cinema, segundo ele, tem ajudado a manter viva uma afinidade cultural no sul da Ásia. Gerações de paquistaneses cresceram assistindo a filmes indianos, que são muito populares e atraem grandes plateias no país. As estrelas do cinema indiano – de Dilip Kumar, nos anos 50, ao superstar atual Shah Rukh Khan – são amadas pelos paquistaneses.

Apesar dos inúmeros esforços para introduzir no Paquistão filmes de outras culturas, Bollywood continua a primeira escolha dos paquistaneses. O impacto da perda dos filmes indianos foi tão forte que o Paquistão não foi capaz de produzir e distribuir filmes o suficiente para todas as salas do país até hoje. 

Em 2017, os donos de cinema decidiram encerrar o veto aos filmes indianos e voltaram a exibi-los, mas o setor sempre ficou à mercê das tensões entre os dois países, como agora.

“Nenhum filme indiano será exibido nos cinemas do Paquistão”, anunciou o assistente especial do governo, Firdous Ashiq Awan, acrescentando que será formulada uma política para banir todo tipo de conteúdo cultural indiano no Paquistão. / REUTERS, NYT e AP 

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