Carlos Eduardo Ramírez / Reuters
Carlos Eduardo Ramírez / Reuters

Crise entre Venezuela e Colômbia se agrava e governos antecipam reunião

Previsto inicialmente para durar 72 horas, fechamento da fronteira decretado por Caracas sob justificativa de combater contrabando será mantido por tempo indeterminado; Maduro acusa ex-líder colombiano Uribe de comandar paramilitares na região

ROBERTO LAMEIRINHAS, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 05h00

CARACAS - Com o aprofundamento da crise na fronteira entre Venezuela e Colômbia, causada principalmente pela ação de contrabandistas de mercadorias, os governos dos dois países decidiram antecipar para depois de amanhã a reunião de chanceleres que estava marcada anteriormente para o dia 14.

Segundo fontes venezuelanas, a antecipação do encontro entre a ministra venezuelana das Relações Exteriores, Delcy Rodríguez, e sua colega colombiana, María Ángela Holguín, se deu por iniciativa do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que nas últimas horas manifestou a assessores a preocupação com o desenrolar dos acontecimentos na região de fronteira, fechada desde quinta-feira por ordem do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Em alguns municípios do lado da Venezuela, vigora um estado de emergência decretado na sexta-feira à noite.

Além da reunião de emergência entre as chanceleres, Santos manifestou também o desejo de reunir-se pessoalmente com Maduro nos próximos dias para discutir a situação. 

Prevista inicialmente para durar 72 horas, a interrupção do tráfego de pessoas e mercadorias entre Venezuela e Colômbia no Estado de Táchira foi estendida no sábado por tempo indeterminado pelo governo de Maduro. “Enquanto não se restabelecer a paz e pararem os ataques vindos da Colômbia contra a economia venezuelana, essa fronteira permanecerá fechada”, declarou o presidente da Venezuela durante um encontro com empregados da companhia estatal de petróleo PDVSA. “Vamos levar uma agenda de paz para conseguir a normalidade na zona fronteiriça e, aos que tanto falam e tanto criticam, que digam o que quiserem. Assumo total responsabilidade por essa medida.”

Crise. A região entre Táchira e o Departamento (Estado) colombiano de Norte Santander é uma fronteira porosa pela qual toneladas de produtos subsidiados pelo governo de Caracas e destinados ao mercado venezuelano são contrabandeados para o território colombiano. Na semana passada, quatro agentes do Estado venezuelano que investigavam o desvio, incluindo três militares, foram alvo de ataques atribuídos a esses contrabandistas. Dois dos investigadores permanecem internados em estado grave.

Em meio a uma profunda crise de abastecimento – que impede os venezuelanos de comprar produtos básicos, que vão de fraldas descartáveis a açúcar refinado –, o governo de Caracas aponta o contrabando de mercadorias como uma das principais razões para o problema, que considera parte de uma “guerra econômica” promovida pela oposição contra a sua “revolução bolivariana”.

O governo de Maduro também acusa grupos paramilitares colombianos de cumplicidade com a “extrema direita” venezuelana numa campanha para sabotar o regime chavista, principalmente com vistas à eleição parlamentar de 6 de dezembro – na qual o chavismo está ameaçado de perder o controle do Legislativo pela primeira vez desde a promulgação da Constituição de 1999.

Um porta-voz da Mesa da Unidade Democrática (MUD), que congrega os partidos de oposição aos chavistas disse ao Estado que a coalizão considera a medida de Maduro pouco produtiva para combater o contrabando na região, acrescentando que o fechamento da fronteira, na verdade, aumenta os problemas da população que vive nos municípios onde o estado de emergência foi decretado. “Há muitas pessoas nessa região que trabalham ou têm negócios estabelecidos do lado colombiano da fronteira”, declarou a fonte.

Maduro e seu Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv) também enxergam na fronteira de Táchira um ponto de concentração e treinamento de paramilitares colombianos para lançar ataques contra o governo venezuelano. 

Ressaltando que, apesar do estado de emergência, “não há toque de recolher nem normas de exceção na fronteira”, Maduro acusou o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe de estar por trás dos ataques contra policiais e soldados venezuelanos. “Que fique bem claro: a responsabilidade pelas ações terroristas contra o Estado e o povo venezuelano na fronteira é do chefe dos paramilitares da Colômbia e sócio das organizações de ultradireita internacional, o terrorista assassino Álvaro Uribe Velez”, discursou o presidente chavista no sábado à noite. 

Durante o mandato de Uribe, Hugo Chávez, presidente venezuelano morto em 2013, manteve tensas relações diplomáticas com a Colômbia – finalmente rompidas em 2008, após um ataque do Exército colombiano que matou no território do Equador o “número 2” da guerrilha Forcas Armadas Revolucionárias da Colômbia, Raúl Reyes. Os laços com o país vizinho, até então principal exportador de alimentos para a Venezuela, só foram refeitos após a saída de Uribe do poder e a posse de Santos.

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