Crise faz Kiev ceder à pressão de Moscou

Um ano após o início dos protestos, Ucrânia sofre com efeitos da recessão econômica

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL, ODESSA, UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2014 | 02h04

Quase um ano depois do início dos protestos que levaram ao momento mais tenso entre Rússia e Ocidente desde o fim da Guerra Fria, a economia ucraniana está à beira do colapso e seu governo está sendo obrigado a ceder às pressões russas para sobreviver.

O comércio foi afetado, a moeda nacional sofreu sua maior desvalorização desde a independência, em 1991, e Kiev prevê uma contração da economia de 10% este ano. A caminho do inverno, as autoridades ucranianas não sabem como importarão gás e economistas não descartam um calote.

O governo agora enfrenta o desafio de reunificar o país, reconstruir suas indústrias e modernizar uma economia ainda presa a hábitos e estruturas soviéticas. No entanto, com eleições parlamentares, dia 26, o presidente Petro Poroshenko quer dar a impressão de que a estabilidade voltou, mesmo que isso signifique fazer concessões aos russos.

Na semana passada, Poroshenko mudou de discurso, ao indicar que "a parte mais perigosa da guerra tinha terminado". A esperança é a de convencer seu eleitorado de que o plano de paz funciona e, assim, conseguir maioria no Parlamento para passar as reformas exigidas pela União Europeia.

No maior porto do país, em Odessa, os sinais da crise são mais evidentes que os planos para transformar a Ucrânia em uma nova economia. Situada no Mar Negro, a cidade vive em parte dos turistas que, no verão, buscam a região e suas praias. Este ano, donos de bares e de hotéis disseram que os turistas russos não apareceram, temendo o conflito. "O maior problema hoje é a ausência dos turistas russos, que lotavam a cidade no verão", disse ao Estado Vladislav Bass, dono de um bar no centro da cidade.

Entre as autoridades, a ordem é manter o otimismo. "Odessa é uma marca e logo teremos turistas de novo", garantiu o vice-governador, Zoya Kazanzhy. Os resultados da crise, no entanto, são evidentes. Em 2013, mais de 60% das exportações ucranianas tinham como destino países do ex-bloco soviético. Em 2014, as vendas do país para o exterior caíram 19%, de acordo com dados oficiais. Operadores do porto de Odessa, contudo, dizem que a queda real é muito maior.

A produção industrial já caiu 20% e as reservas em moedas estrangeiras se contraíram 25%, mesmo com a ajuda da UE e do FMI. A inflação é de 14% e a moeda local, a grívnia, perdeu quase 40% do valor.

Para o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, a contração da economia ucraniana será de 9%, e não de 7% como previsto em maio. Para a entidade é "o rompimento do comércio com a Rússia" que está afetando centenas de empresários pelo país.

Tal projeção seria resultado das perdas na "produção, na agricultura e no comércio, além da mobilização militar parcial". A contração continuaria em 2015. Graças à injeção de dinheiro pelo FMI, porém, a queda seria de "apenas" 3%.

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