Crise faz petróleo atingir maior cotação em 2 anos

Instabilidade na Líbia, 12º produtor de óleo, eleva preço do barril a US$105 e já ameaça [br]abastecimento na Europa

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

O conflito no 12.º maior exportador de petróleo no mundo, a Líbia, faz o preço do barril aumentar rapidamente e atingir a maior cotação em mais de dois anos. A situação em Trípoli já ameaça o abastecimento da Europa, dependente de importação de petróleo, e fez bolsas de valores despencarem ao redor do mundo.

Desde o início da crise, 50 mil barris de petróleo a menos por dia estão saindo da Líbia rumo à Europa. O volume poderia crescer rapidamente se o conflito se aprofundar.

Cerca de 6% da produção nacional de petróleo da Líbia já foi paralisada, o suficiente para levar a um salto de 5% no preço internacional do petróleo, atingindo US$ 105 por barril. O valor é o mais alto desde a eclosão da crise econômica de 2008.

Diante da ameaça de um desabastecimento, a Agência Internacional de Energia já anunciou que suas reservas estratégicas estão sendo colocadas à disposição dos países importadores, principalmente europeus. Essas reservas só foram usadas em duas ocasiões: em 1991 na Guerra do Golfo e em 2005, com o furacão Katrina.

Com 2% da produção mundial de Petróleo, o regime de Muamar Kadafi garante 20% do consumo da Itália e, até poucos meses, de 70% da Suíça. Vários outros países europeus passaram a importar petróleo da Líbia nos últimos anos, depois que Kadafi fechou um acordo em 2003 que prometia livrar seu país de armas proibidas - químicas, biológicas e nucleares. Em troca, deixou de ser um pária internacional e as sanções contra Trípoli foram levantadas.

Rapidamente a Líbia passou a ser um dos maiores exportadores de petróleo e, com o dinheiro, Kadafi adquiriu empresas na Itália, ajudou a Fiat a superar problemas financeiros e comprou até 7% das ações do time da Juventus de Turim, onde colocou seu filho para jogar.

Não por acaso, ontem a Bolsa de Milão fechou em queda de 3,5% diante do caos no país norte-africano. O ouro subiu e a prata atingiu seu maior nível em 33 anos. Em Londres, a bolsa fechou em baixa de 1,1%.

Na Wintershall, controlada pela Basf, a produção na Líbia foi reduzida. Shell, Total, ENI e OMV já começaram a retirar seus funcionários do país. A BP anunciou a suspensão de operações de exploração e vai retirar 40 funcionários internacionais. A empresa havia fechado um contrato de quase US$ 1 bilhão com Kadafi em 2007. Já norueguesa Statoil chegou seu escritório em Trípoli.

A produção na Líbia é estimada em 1,6 milhão de barris por dia. Mas, pelo menos no campo de Nafoora, o fluxo teria sido interrompido. Na Europa, a principal preocupação é com a possibilidade de que o conflito se transforme em uma guerra separatista na região leste da Líbia - Cirenaica - rica em petróleo.

Temor. A Europa teme também que o dominó de governos no Norte da África leve a um aumento vertiginoso no fluxo de imigrantes em suas costas. O cenário já fez governos europeus articularem uma operação para defender suas fronteiras.

Kadafi já havia ameaçado romper seu acordo de imigração se Bruxelas não mudasse o tom das críticas contra seu regime. Diplomatas europeus consultados pelo Estado afirmaram que, para muitos governos europeus, a ideia de uma onda de refugiados e imigrantes nesse momento de crise econômica pode ser desastrosa em termos eleitorais. Muitos líderes da região foram eleitos com base na luta contra a imigração.

A Itália, que mantém relações estreitas com Kadafi, deixou claro ontem que não quer ver, em suas costas, uma fragmentação da Líbia. "Um emirado islâmico nas fronteiras da Europa seria muito perigoso", afirmou o ministro de Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, dizendo que os manifestantes já teriam tomado a cidade de Benghazi.

Uma repetição do que ocorreu nos anos 90 com o fluxo de iugoslavos fugindo da guerra provocaria uma situação bem mais incômoda hoje para os europeus. Ontem, a UE deixou claro que teme essa ameaça imigratória. "Estamos muito inquietos com a evolução da situação no Norte da África", afirmou Michele Cercone, porta-voz da comissária de Imigração da UE, Cecila Malmstrom. Segundo ela, se a Líbia de fato romper o acordo, o fluxo de imigrantes pode explodir.

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