Crise humana e étnica em Mianmar beira a tragédia

Campos de refugiados sem infraestrutura abrigam 115 mil pessoas da etnia rohingya, classificada pela ONU como uma das mais perseguidas

SOLLY BOUSSIDAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, SITTWE, MIANMAR, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h05

Enquanto a guinada política e econômica dos últimos meses tem levado Mianmar a roubar as atenções, no noroeste do país uma crise humana pouco divulgada e há anos em ebulição atingiu contornos de tragédia e não parece que em breve terá uma solução.

O Estado obteve acesso a campos de refugiados em Mianmar, onde cerca de 115 mil pessoas, entre elas milhares de crianças, estão amontoadas em acampamentos sem a menor infraestrutura sanitária, em pequenas tendas superlotadas, com escassez de eletricidade, água potável e comida.

"Recebemos um saco de arroz por família por mês e só. Não podemos sair do acampamento para comprar comida ou trabalhar. Não temos dinheiro. As crianças choram de fome durante a noite", diz Ahmad, de 19 anos. Desde junho, ele vive com a mãe e uma irmã em um dos acampamentos de refugiados que pontilham o Estado birmanês de Rakhine. Segundo o rapaz, seu pai e seus dois irmãos foram levados por policiais durante confrontos étnicos que ocorreram entre maio e novembro e nunca mais retornaram.

A grande maioria desses refugiados pertence a uma etnia denominada rohingya. Originários de uma área que atualmente engloba partes de Rakhine - um dos Estados que compõem Mianmar - e do vizinho Bangladesh, os rohingya são uma das únicas etnias muçulmanas em um país onde 89% da população adere ao budismo.

Classificados pela ONU como "uma das minorias étnicas mais perseguidas do planeta", os rohingya são discriminados pela população e pelo governo de Mianmar, que os considera "imigrantes ilegais de Bangladesh".

O governo afirma que os rohingya, comumente chamados de "bengalis" ou "kalar" (um termo pejorativo que denota muçulmanos de pele escura), foram trazidos como trabalhadores pelos colonos britânicos do vizinho Bangladesh a partir do século 18 e são, portanto, uma etnia implantada em Mianmar.

Os rohingya, por sua vez, apontam sua origem para uma região que ultrapassava as fronteiras modernas e atribuem sua observância do Islã a séculos de contato com mercadores árabes, em uma das principais rotas de comércio da Ásia.

Há cerca de 800 mil rohingya vivendo em Rakhine, uma das regiões mais pobres de Mianmar. Totalmente desprovidos de proteção jurídica ou social, eles são ainda mais vulneráveis e empobrecidos que o restante da população local.

A situação dos rohingya é complicada por uma lei de nacionalidade adotada por Mianmar em 1982, que concede cidadania a 135 etnias consideradas nativas do país. Mas a lei exclui os rohingya - apesar de a maioria estar em Rakhine há gerações. Em vez de documentos de identidade, os rohingya possuem certificados de estrangeiros, e uma série de restrições são impostas no seu dia a dia. Eles são proibidos de viajar de uma cidade a outra sem autorização, de estudar em universidades públicas, de possuir terras e de exercer diversas ocupações. Eles também precisam de permissão para casar ou ter filhos. O processo, se aprovado, pode levar anos e custa oficialmente cerca de R$ 1.350. Caso sejam pegos morando ou dormindo juntos sem as licenças necessárias, os rohingya enfrentam penas que podem chegar a 3 anos de prisão.

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