Crise indiana sobre corrupção dá sinais de impacto político

Pelo menos 10 mil pessoas se juntaram neste sábado na Índia para apoiar um ativista anticorrupção que colocou grande parte do país contra o governo devido à sua greve de fome, em meio a sinais do primeiro-ministro Manmohan Singh para encerrar o impasse.

ANNIE BANERJI E ALISTAIR SCRUTTON, REUTERS

20 de agosto de 2011 | 10h23

Anna Hazare, um ativista gandhiano, está em seu quarto dia de jejum em um local público na capital, uma greve de fome que ele diz que irá continuar até o governo aprovar uma legislação mais rígida.

No local onde o ativista faz o protesto, pessoas distribuem comida para uma multidão que inclui muitos trabalhadores da classe média e jovens estudantes. Várias pessoas vestidas como Gandhi se juntaram aos manifestantes.

"Acreditávamos que tínhamos conquistado a independência, mas não tínhamos. A mesma corrupção, o mesmo saque, o mesmo terror estão aí," afirmou Hazare à multidão, acrescentando que a Índia precisa de reformas eleitorais e uma nova lei contra a corrupção.

Hazare deixou a prisão na sexta-feira, sendo recebido por um grande público e uma intensa cobertura da imprensa. Ele foi brevemente preso na terça-feira, mas depois se recusou a sair da prisão até que o governo permitisse que ele continuasse a greve de fome pública por 15 dias.

Houve sinais de que o governo, que tem seu próprio projeto de lei anticorrupção no Parlamento, esteja buscando um acordo em vez de a postura linha-dura que adotou no começo da semana. O Congresso publicou alertas em jornais neste sábado pedindo adendos públicos à legislação.

"Estamos abertos à discussão, diálogo," disse Singh a repórteres neste sábado. "Há muito espaço para ceder."

Um dos principais partidários de Hazare, o advogado Prashant Bhushan, disse ao jornal The Indian Express que "se o governo nos convencer sobre esse ponto de vista, aceitaremos."

INCITANDO A CLASSE MÉDIA

Vários escândalos, incluindo um envolvendo subornos nas telecomunicações e que pode ter custado ao governo até 39 bilhões de dólares, levaram Hazare a exigir medidas contra a corrupção. Mas o projeto do governo de criar um ombudsman para o tema foi criticado como sendo muito ameno.

A fraca oposição política significaria que o governo poderia sobreviver à crise, mas isso pode piorar ainda mais a perspectiva de reformas econômicas e minar o Partido do Congresso eleitoralmente. Alguns comentaristas afirmaram que o movimento pró-Hazare pode enfraquecer, uma vez que ele não está mais na prisão.

Vestido com seu tradicional chapéu branco, kurta e óculos, Hazare evocou as memórias do líder da independência Mahatma Gandhi, que é reverenciado como pai da nação.

Uma equipe médica está de prontidão para monitorar a saúde de Hazare. Uma piora significativa de seu estado pode agravar a crise para o governo, mas os partidários do ativista dizem que ele é muito resistente.

Os protestos, inflamados pelas redes sociais, não apenas abalaram o Partido do Congresso, mas também impactaram na classe política como um todo. Houve mais de 500 manifestações separadas em toda a Índia na sexta-feira, informou a imprensa local.

(Reportagem adicional de Arup Roychoudhury e Rajesh Kumar Singh)

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