Crise iraquiana deve sepultar reforma da ONU

Aventada depois da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria, no final dos anos 80, a idéia de reformar o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas para que ele reflita as realidades do mundo no início do século 21 nunca prosperou e será definitivamente sepultada pelo racha entre os cinco membros permanentes do CS a respeito de como proceder em relação ao Iraque.A avaliação é feita pelos dois últimos ministros das Relações Exteriores brasileiros, os embaixadores Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer, e contém um óbvio conselho ao atual titular o Itamaraty, o embaixador Celso Amorim, que ressuscitou recentemente a pretensão brasileira a um lugar num Conselho de Segurança reformado, durante visitas a Tóquio, Moscou, Paris e Berlim."Se os Estados Unidos e a Inglaterra forem à guerra à revelia de uma decisão do Conselho, este ficará desmoralizado e a ONU entrará numa fase muito complicada", disse Lampreia. "Não creio que os EUA terão interesse em reformar o Conselho ou expandir o número de seus membros permanentes, aumentando as chances de suas ações virem a ser contestadas". Lafer disse que concorda com seu antecessor no Itamaraty.O ex-ministro lembra que a idéia da reforma do Conselho nasceu, em grande parte, da necessidade de incluir e dar maior visibilidade ao Japão e à Alemanha reunificada nos órgãos internacionais de decisão, reconhecendo o novo status dos dois países derrotadas na Segunda Guerra Mundial como segunda e terceira potências econômicas mundiais e importantes provedores de fundos para iniciativas internacionais. Como não se podia conceber simplesmente uma adição do Japão e da Alemanha como membros permanentes do Conselho, ao lado dos EUA, China, Rússia, França e Inglaterra, passou-se a explorar a inclusão de países representativos da África (como a África do Sul, a Nigéria ou o Egito), da América Latina (Brasil, México ou Argentina) e da Ásia (Índia, Indonésia ou Paquistão)."Em 1992, quando fui ministro das Relações Exteriores a primeira vez, cheguei a conversar sobre o assunto com o então secretário de Estado americano Lawrence Eagleburger", contou Lafer. "Ele disse que o cinqüentenário da ONU poderia oferecer uma oportunidade para a discussão do tema, mas mostrou-se cético, dizendo que a escolha dos países abriria uma caixa de Pandora".Em 1995, em seu primeiro ano de governo, Fernando Henrique Cardoso testou as águas. "Fizemos um esforço para verificar se a idéia tinha alguma viabilidade, mas logo constatamos que as manifestações favoráveis da França, da Rússia e de outros não passava de retórica e, por isso, tiramos o tema da nossa agenda", contou Lampreia.O impasse entre os Estados Unidos e a França no CS, em torno de uma proposta de resolução que daria legitimidade internacional a um ataque contra o Iraque, tem levado a administração Bush a advertir Paris e as demais capitais que resistem a apoiar a posição americana do risco de a organização internacional condenar-se à irrelevância. O presidente George W. Bush já disse que não precisa de permissão da ONU para ir à guerra contra Saddam Hussein. Se insiste em obter tal permissão, mesmo sabendo que ela será vetada e anulada pela França e pela Rússia na improvável hipótese de obter o apoio mínimo de nove dos quinze países representados no CS, é porque sabe que o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, precisa desesperadamente de um aval da ONU para justificar, perante os britânicos seu apoio à estratégia de Bush.Os críticos da postura francesa em Washington apontam para o que consideram a falta de cabimento de uma nação de porte médio, como a França, ter poder de veto sobre as decisões do CS. Mas, como lembram os ex-chanceleres, esse tipo de constatação dificilmente levará a uma mudança do desenho do Conselho. E mesmo que levasse, o Brasil teria que pesar bem se lhe interessa e se está preparado para assumir os riscos e custos inerentes a uma cadeira permanente. "Creio que, se pudessem escolher, o Chile e o México prefeririam não estar hoje no Conselho de Segurança, pois estão sendo submetidos a pressões para tomar uma decisão que não é de seu interesse imediato e com a qual têm muito mais a perder do que a ganhar", disse Lampreia.

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