Crise leva Kirchners a propor voto antecipado

Governo teme que piora da situação cause derrota devastadora em outubro

AFP, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

A presidente argentina, Cristina Kirchner, enviará segunda-feira ao Congresso um projeto de lei que prevê adiantar para 28 de junho as eleições legislativas previstas inicialmente para 25 de outubro. Para a oposição, o casal Kirchner considera que pode conquistar mais votos com a antecipação, avaliando que os efeitos econômicos da crise global até outubro poderiam ser devastadores para o governo federal. No fim de semana, a ala peronista liderada pelos Kirchners sofreu uma inesperada derrota, por mais de 10 pontos porcentuais em eleições legislativas na pequena Província de Catamarca. Após seis anos de alto crescimento, o governo foi surpreendido pela desaceleração econômica. As exportações tiveram uma queda de 36% em janeiro, em relação ao mesmo período do ano anterior. Na indústria automobilística, a queda foi de 55%.Cristina justificou a proposta afirmando esperar que o Congresso argentino livre-se logo da agenda eleitoral e se concentrem o quanto antes no debate das medidas contra a crise. Segundo ela, a antecipação evitará que os legisladores passem os próximos seis meses envolvidos na disputa eleitoral."Seria suicídio embarcar a sociedade, de agora até outubro, numa discussão permanente enquanto o mundo cai aos pedaços", disse Cristina, em discurso na cidade de Rawson, na Patagônia argentina. "A crise é de enorme magnitude e exige que todos os esforços estejam voltados para a sustentação da atividade econômica e do nível de emprego."IMPOPULARAté agora, o governo vinha utilizando o crescimento econômico como um trunfo valioso, num país traumatizado por recentes crises. A popularidade de Cristina caiu de 50% no início do mandato, em dezembro de 2007, para 30% no início deste ano, segundo as pesquisas mais confiáveis. As eleições deverão renovar metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado. Hoje, o governo já tem maioria nas duas Casas.Na oposição, as maiores críticas ao projeto vieram do partido social-democrata União Cívica Radical (UCR), que detém a segunda maior bancada no Congresso. "Estão loucos. Creem que a crise pode ser enfrentada com esperteza", disse o líder da UCR, Gerardo Morales. "Os Kirchners creem que pondo esse tema na agenda vão resolver os problemas do campo e da insegurança", acusou Morales, fazendo referência também ao marido de Cristina e ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner (2003-2007), que reparte as decisões de governo com a mulher.Para o líder da aliança Solidariedade e Igualdade (SI), de centro-esquerda, Eduardo Macaluse, a decisão "é um indício de que o governo não confia muito no futuro e adianta as eleições considerando que o que vem por aí é ruim".OBAMAOntem, o presidente americano, Barack Obama, manteve uma conversa telefônica de 35 minutos com Cristina "sobre a situação econômica mundial e a necessidade de manter os empregos". O contato ocorreu um dia antes do encontro entre Obama e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em Washington.Cristina também anunciou ontem que visitará o Brasil na quinta e sexta-feira para discutir uma estratégia para o encontro do G-20, marcado para o início de abril, em Londres.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.