Jorge Torres/EFE
Jorge Torres/EFE

Crise levará 28,7 milhões à pobreza na América Latina, diz comissão da ONU

Estudo da Cepal mostra que desemprego e queda do PIB causará aumento de 4,4% da população pobre até o fim do ano; país mais afetado será Nicarágua, onde governo é acusado de ocultar impacto da pandemia

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 04h00
Atualizado 15 de maio de 2020 | 13h06

SANTIAGO - A pandemia chegou à América Latina em um momento de baixo crescimento econômico e levará neste ano 28,7 milhões de pessoas à pobreza, um aumento 4,4% com relação a 2019, e mais 15,9 milhões à extrema pobreza, crescimento de 2,6%. Segundo a Cepal, agência da ONU criada para coordenar o desenvolvimento regional, 214 milhões de latino-americanos viverão na pobreza no fim de 2020 – 34,7% da população –, com 83,4 milhões na extrema pobreza. 

O Banco Mundial define a pobreza extrema como viver com menos de US$ 1 por dia e pobreza como viver com até US$ 2 por dia. Para analistas, a piora econômica na América Latina foi agravada pela pandemia, mas é consequência de erros políticos e problemas preexistentes. 

“Com o grau de concentração de renda que a América Latina tem, um dos piores do mundo, não há dúvida nenhuma que o impacto será muito forte. A pandemia agravou problemas que já existiam porque, mesmo antes da crise, a Cepal previa um crescimento médio de apenas 1,6% na região”, afirma o professor de relações internacionais da ESPM Leonardo Trevisan.

O cenário é consequência da queda de 5,3% do PIB e do aumento de 3,4% do desemprego na região, segundo projeção da Cepal. As maiores economias do bloco devem ser as mais afetadas: Argentina e Brasil terão os maiores aumentos dos índices de pobreza. 

Em toda a América Latina, porém, o maior aumento da pobreza extrema será registrado na Nicarágua, país que vem navegando às cegas pela pandemia. Até agora, o governo do presidente Daniel Ortega relatou apenas 25 casos de covid-19 e 8 mortes – números vistos com desconfiança, especialmente quando comparados aos dois vizinhos. Honduras registrou 2,2 mil casos e a Costa Rica, 830.

México e Equador terão os dois cenários muito agravados. ​“Brasil, México, Argentina, cada um tem um perfil de problemas que, sem a pandemia, já seria suficiente para não ter um crescimento econômico desejável”, diz Trevisan. Em 2019, no México, por exemplo, afetava 41,9% da população e a pobreza extrema, 11,1%. Com a queda do PIB e o desemprego consequentes da pandemia, 47,8% da população mexicana deve passar a viver na pobreza e 15,9% na extrema pobreza.

Para o professor Trevisan, esse cenário leva a uma discussão sobre qual modelo econômico a região pretende seguir depois da crise. “Vemos um fracasso de modelos na região. Por exemplo, o modelo venezuelano indiscutivelmente não resolveu os problemas da Venezuela, que agora tem uma inflação completamente descontrolada e uma perda de população por migração forçada. Por outro lado, você tem o modelo chileno, a menina dos olhos da região, que também não deu certo. O índice de qualidade de vida entre 40 países da OCDE coloca o Chile em 24.º, isso explica porque a população chilena foi para as ruas.”

Informalidade

Outro problema da pandemia será, segundo a Cepal, o aumento do trabalho informal na América Latina. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostram que em 2016 53,1% dos empregos eram informais, em 2018 apenas 47,4% dos empregados tinham acesso a sistemas de aposentadoria e mais de 20% dos empregados viviam na pobreza. A OIT estima que a informalidade pós-crise pode chegar a 75% na região. 

Trevisan explica que esse fator é um dos que dificulta a realização do isolamento social de forma adequada. “Na Alemanha, onde o controle do vírus foi muito eficaz, não se criou nenhum tipo de polarização política em torno do vírus. Os alemães não consideravam o vírus de direita, esquerda ou centro. Mas além disso, o confinamento funcionou muito bem e por que? Aí vamos para a OIT. O volume de trabalho informal na América Latina é maior. E a provável expansão da informalidade na região talvez seja a pior das heranças dessa crise.

A informalidade média pode chegar a 75% porque os empregos formais vão desaparecer e isso vai agravar a desigualdade.”

Nicarágua

Na Nicarágua, os ônibus sempre viajam superlotados e quase ninguém usa máscara de proteção. Nos bancos e nos supermercados mais caros a temperatura é medida, um frasco de álcool em gel fica na entrada e um tapete com solução de cloro ajuda a desinfetar os pés dos clientes. Mas, nos mercados populares, frequentados pela maioria da população, não há distanciamento social. O mesmo ocorre nos jogos de beisebol e partidas de futebol – as competições não pararam no país. 

Aos 74 anos, Ortega governa a Nicarágua há mais de 13 anos. Antes da pandemia, ele já vinha tendo dificuldades em se manter no poder e enfrentava protestos de estudantes que pediam sua renúncia. Com a chegada do coronavírus, o horizonte econômico ficou ainda mais obscuro e o presidente nicaraguense decidiu não arriscar: ignorou o surto e pediu que a população o continuasse a viver como se nada estivesse acontecendo. 

Os nicaraguenses desconfiam que o governo esteja ocultando a real dimensão da pandemia. Ordens de enterros imediatos, proibição de velórios, presença de policiais e de funcionários do Ministério da Saúde nos funerais, além de pessoas mortas de forma súbita nas ruas têm deixado a população em alerta. 

A Embaixada dos Estados Unidos no país recomendou aos americanos que vivem no país que estoquem alimentos, água e medicamentos para 15 dias. O Departamento de Estado também pediu que seus cidadãos procurem refúgio o mais rápido possível em razão do avanço da pandemia de coronavírus no país.

“Os cidadãos americanos que permanecem na Nicarágua devem garantir um estoque adequado de comida, água e medicamentos para pelo menos duas semanas”, alerta a embaixada uma mensagem postada em seu site. A preocupação do governo é com a diferença entre os registros oficiais de covid-19 e o número real de casos estimado por organizações independentes. Apesar de o país não ter fechados as fronteiras com os vizinhos, Costa Rica e Honduras, todos os voos foram cancelados. 

O governo americano havia recomendado que seus cidadãos deixassem a Nicarágua no dia 19 de março, um dia depois de Ortega ter reconhecido o primeiro caso de covid-19 no país. Agências de defesa dos direitos humanos da ONU e da OEA afirmam que o governo nicaraguense vem sistematicamente violando o direito à saúde ao ignorar o surto de coronavírus. / COM EFE

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