Adam Berry/AFP
Adam Berry/AFP

Crise migratória: Merkel eleva tom por livre circulação

Alemanha vai exigir que governos europeus adotem uma cota para receber os refugiados que chegam principalmente pelo Leste

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2015 | 20h37

A Alemanha alertou nesta segunda-feira, 31, que o princípio da livre circulação de pessoas pela Europa está ameaçado e vai exigir que cada um dos governos europeus adote uma cota para receber refugiados. A proposta, que está sendo desenhada com o governo francês, tem como meta repartir o fluxo de estrangeiros pelo continente e obrigar todos a abrir suas fronteiras para quem foge de conflitos – principalmente os sírios.

Hoje, em mais uma demonstração do aprofundamento da crise, a Áustria endureceu seu controle sobre a fronteira com a Hungria e barrou a circulação dos trens entre Budapeste e Viena. Filas de mais de 30 quilômetros foram formadas pelas estradas e, depois de 26 anos da abertura das fronteiras entre a Áustria e o Leste Europeu, a nova atitude reabriu um debate no continente sobre o futuro da livre circulação, um dos maiores avanços políticos em décadas na Europa.

A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que se o bloco não chegar a acordo para dividir o fluxo de estrangeiros, os tratados que permitem essa livre circulação – um dos pilares da UE – estarão ameaçados. 

No início da noite, centenas de refugiados chegaram à estação de trens de Munique. Num esforço para conter os planos de Merkel, os países do Leste Europeu convocaram uma cúpula separada da UE para o fim de semana. Polônia, Hungria, República Checa e Eslováquia pretendem deixar claro que não aceitarão a imposição de cotas. 

O acordo de Schengen estabeleceu o fim das fronteiras entre países da UE, mas sob a condição de que os países limítrofes com os membros do bloco adotassem medidas para controlar o fluxo e permitir a entrada de refugiados. 

O maior obstáculo hoje é que justamente esses países rejeitam aceitar refugiados, permitindo que um fluxo relevante de estrangeiros prossiga na direção do restante da Europa, principalmente para a Alemanha.

“Se não conseguirmos uma distribuição justa dos refugiados, muitos vão questionar Schengen e isso é algo que não queremos”, alertou Merkel. Para ela, o bloco “deve preservar o princípio da livre circulação”.

Na Hungria, apesar de o governo já ter recebido 148 mil pedidos de asilo este ano, apenas 128 foram concedidos. Budapeste está concluindo a construção de um muro na fronteira com a Sérvia e o Parlamento deve aprovar lei que permite à polícia entrar na casa de qualquer pessoa se houver suspeita da presença de imigrantes sem documentos. Cruzar a fronteira de forma ilegal passará a ser crime, com prisão de 5 anos em caso de reincidência. 

Mas não são apenas os governos do Leste Europeu que rejeitam o plano. Na Grã-Bretanha, o premiê David Cameron tinha como uma de suas promessas de campanha a redução da imigração e, hoje, é um dos que recusam a imposição de aceitar refugiados.

A Alemanha prevê que receberá 800 mil pedidos de asilo este ano, quatro vezes o número de 2014. Merkel afirma que a Alemanha tem como suportar o fluxo, mas alerta que “não está certo” que alguns governos rejeitem aceitar os refugiados.

Pressão. Questionada sobre se a Grã-Bretanha deveria ser punida por não mostrar solidariedade, a chanceler alemã defendeu um diálogo. “Não vou pegar meus instrumentos de tortura”, disse. Mas alertou: “Se a Europa fracassar na questão dos refugiados, não seremos a Europa que esperávamos ser”. 

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, adotou o mesmo tom e alertou na cidade de Calais que a crise seria “longa e um desafio grande”. 

Inaugurando mais um centro de acolhida para refugiados que custou 5 milhões de euros, Valls também concentrou suas críticas no Leste Europeu. “Muitos estão rejeitando assumir responsabilidades e não podemos aceitar isso”, disse. “Cercas de arame farpado não vão resolver.”


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