Luis Cortes / Reuters
Luis Cortes / Reuters

Crise na Bolívia: A ascensão e queda de Evo Morales

Por que a gestão dele teve tanto destaque? Como ele mudou a nação sul-americana? A democracia corre perigo no país? Entenda essas e outras questões

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 10h46

BOGOTÁ - A renúncia de Evo Morales da presidência da Bolívia talvez possa se igualar a sua chegada ao poder. O primeiro chefe de Estado indígena do país mudou a política em uma nação governada durante décadas por descendentes europeus de pele clara, e prometeu reverter séculos de desigualdade. 

Foi bem-sucedido em muitas frentes, mas acabou se vendo obrigado a renunciar após grupos que um dia o apoiaram se voltarem contra ele.

Por que a presidência de Evo teve tanto destaque?

Quando Evo, filho de um criador de lhamas, chegou à presidência por uma esmagadora maioria em 2006, sua vitória foi considerada um feito histórico para a população indígena do país, que não tinha direito a voto até 1952.

Nesse momento, os 36 grupos indígenas da Bolívia representavam 60% dos 8,5 milhões de habitantes. Para muitos deles, Evo, que é aimará, foi o primeiro líder que se parecia com eles e pensava como eles.

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Como muitos compatriotas, Evo cresceu em um ambiente de pobreza extrema. Quatro de seus seis irmãos morreram ainda crianças. Durante a campanha eleitoral, deixou de lado o tradicional terno e gravata dos políticos e optou pelas informais camisas de manga curta e até jaqueta de couro, enquanto chamava carinhosamente as mulheres de “irmãs” e os homens de “chefes”.

Evo prometeu reverter séculos de desigualdade. “Estamos aqui para mudar juntos essas injustiças, esse roubo permanente dos nossos recursos naturais”, além da discriminação, do ódio e do desprezo, disse ele após sua vitória.

Como Evo mudou a nação sul-americana?

Sob o mandato de Evo Morales, mais de meio milhão de bolivianos saíram da pobreza, enquanto estudantes, idosos e mães se beneficiaram dos novos recursos.

A economia cresceu com força graças ao elevado preço dos produtos básicos. Segundo o Banco Mundial, a pobreza moderada, que prejudicava 59% da população do país dois anos antes da chegada de Evo ao poder, caiu para 39% em 2014.

Evo introduziu uma nova Constituição que levou a um novo Congresso com cadeiras reservadas para grupos indígenas minoritários, e reconheceu o culto à Pachamama (Mãe Terra) no lugar da Igreja Católica. 

A Carta Magna também “refundou” a Bolívia como um Estado “plurinacional”, permitindo o autogoverno dos povos indígenas. Contudo, apesar dos temores de alguns de que pudesse haver um giro à esquerda na economia, Evo manteve o país dependente de suas indústrias de extração enquanto negociava pontos mais favoráveis que permitiram uma maior distribuição da riqueza gerada pelo gás e pelos minerais.

O que causou a queda de Evo?

Não foi um momento facilmente identificável, mas sim uma série de passos em falso. Os mesmos líderes indígenas que levaram Evo ao poder se sentiram cada vez mais desapontados com um presidente o qual sentiram que havia traído suas promessas de proteger o meio ambiente e se afastar da dependência das grandes indústrias, como a de mineração. 

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Milhares de bolivianos saíram às ruas em 2011 quando Evo seguiu adiante com seus planos para construir uma rodovia atravessando uma reserva protegida da Amazônia. E apesar da melhora dos indicadores econômicos, uma parte importante da nova classe média descobriu que as oportunidades de trabalho não haviam crescido o suficiente e se cansou da corrupção que muitos acreditavam que o presidente não combatia.

Quando convocou um referendo em 2016 para eliminar o limite no número de mandatos no poder, os eleitores deram as costas a Evo. Mais tarde, causou mais desapontamento ao deixar que o Tribunal Supremo retirasse os limites, o que permitiu a ele buscar sua quarta reeleição este ano.

A vitória nas eleições de 20 de outubro foi concedida a ele, mas as inexplicáveis falhas na divulgação dos resultados levaram a acusações de fraude eleitoral e semanas de protestos. Os apoios ao presidente ficaram ainda mais prejudicados e, finalmente, uma declaração do chefe do Exército provocou sua renúncia.

“Se tivesse tentado não forçar o assunto de sua reeleição, provavelmente teria sido lembrado de forma bastante positiva”, explica Alissandra Stoyan, professora de ciências políticas da Universidade Estadual do Kansas.

Qual seria o efeito da decisão de Evo?

A renúncia de Evo foi anunciada em um momento de agitação social em toda a América Latina. Cidadãos frustrados organizaram protestos que reuniram milhares de pessoas contra líderes de direita em Honduras e no Chile. Na Argentina, os eleitores voltaram a escolher o lado peronista e rejeitaram um presidente que apoiava reformas de livre mercado.

Mas o partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS), terá que travar agora uma batalha desigual contra uma posição empoderada em uma nova eleição presidencial. “Parece que a América Latina está se tornando mais complexa nos últimos anos e não podemos falar em ‘marés’ como costumávamos fazer”, afirma Jorge Derpic, professor de sociologia da Universidade de Georgia especializado nos movimentos sociais na América Latina.

A democracia na Bolívia corre perigo?

Algumas pessoas estão preocupadas porque a Bolívia pode voltar a uma época turbulenta em sua longa trajetória de volatilidade política após quase 14 anos de relativa estabilidade com Evo. Segundo uma pesquisa, o país teve mais de 190 tentativas de golpe de Estado e revoluções desde a sua independência, em 1825, em um ciclo repetitivo de conflito entre as elites políticas das zonas urbanas e os desfavorecidos dos setores rurais.

Há incertezas sobre quem ocupará o poder antes da realização de novas eleições. Uma senadora de oposição se autoproclamou presidente interina na terça-feira, 12, mas não está claro quanto apoio ela tem.

Nancy Postero, professora de antropologia da Universidade da Califórnia, é otimista e acredita que a classe média boliviana jovem e formada encontrará uma saída. Ela lembra que há mais de uma década o próprio Evo traçou um caminho rumo à estabilidade após a onda de descontentamento que o precedeu.

“O povo boliviano escreveu uma nova Constituição, refez a sociedade e criou uma forma totalmente diferente de pensar sobre o Estado”, explica Nancy. “Não tenho dúvida de que isso voltará a acontecer.” / AP

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