David Mercado/Reuters
David Mercado/Reuters

Crise na Bolívia provoca desabastecimento de combustível e aumento dos preços em La Paz

A maioria dos postos está fechada e a gasolina é vendida no mercado negro a valores exorbitantes; preços dos alimentos também subiram com o bloqueio de estradas

Ricardo Galhardo, Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2019 | 06h00

LA PAZ - “No rio revolto está o lucro do pescador”, praguejou o taxista Mario na manhã desta sexta-feira, 15, em La Paz. Ele acabara de receber uma chamada da central de táxi para a qual presta serviços informando que em um posto da Zona Sul a gasolina estava sendo vendida a B$ 10 o litro. O preço normal é B$ 3,74.

O desabastecimento de combustíveis é um dos sintomas mais visíveis para a população de La Paz da crise que se instalou no país andino desde que vieram à tona as suspeitas de fraude nas eleições presidenciais da Bolívia de 20 de outubro.

A maioria dos postos de combustível está fechada, cercada de tapumes de madeira e zinco para evitar depredações. Os poucos postos abertos têm filas quilométricas que demoram até duas horas. Isso fez florescer um mercado negro no qual a gasolina é vendida pelos olhos da cara. O esquema funciona em vielas estreitas nas quais homens desconfiados entregam os galões de combustível.

Antes de receber a ligação da central, Mário havia abastecido a B$ 8 o litro. “Um roubo, mas o que se há de fazer”, disse, resignado.

Segundo Mário, o único sintoma positivo do desabastecimento é o trânsito. “Tem poucos carros na rua porque ninguém tem gasolina”, explicou.

O motivo da falta de combustível em La Paz são os bloqueios em rodovias que dão acesso à capital boliviana feitos por apoiadores do ex-presidente Evo Morales na região do Altiplano.

Na quinta, a YFPB, estatal de combustíveis, comunicou oficialmente o risco de desabastecimento. Àquela altura mais da metade dos postos da cidade já estava fechada. A autoproclamada presidente interina, Jeanine Áñez, anunciou um plano conjunto entre os ministérios dos Hidrocarburetos, Defesa, Exército e Polícia Nacional para normalizar o abastecimento.

“Ontem (quinta-feira) posicionamos nosso ministro de Hidrocarbonetos, que imediatamente se pôs a trabalhar e fazer um plano em conjunto com o Ministério da Defesa, o Exército e a Polícia Nacional porque creio que o povo boliviano não teria motivos para estar sofrendo desabastecimento”, disse a presidente interina. Jeanine culpa Evo e seu partido Movimento Ao Socialismo (MAS) pela falta de combustível.

Além de gasolina, começam a se tornar escassos alguns itens básicos de alimentação como carne e verduras. Isso também provocou aumento de preços. Em alguns mercados, o litro de leite, que normalmente custa B$ 6, está a B$ 8. A dúzia de ovos foi de B$ 9 para B$ 13, o quilo do peito de frango aumentou de B$ 29 para B$ 35 e o pé de alface que custava B$ 4 sai a B$ 8.

“Não é cobiça. Estamos pagando mais caro por estes produtos e precisamos repassar os preços para o consumidor final”, disse o comerciante Manuel Rodríguez, dono de uma mercearia no centro de La Paz.

“Quero ver alguém explicar isso para o meu neto que vai ficar sem leite se as coisas não melhorarem”, respondeu a dona de casa Valéria Morales, que fazia compras no local.

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