MON/Handout via REUTERS
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Crise na fronteira entre Belarus e Polônia: entenda o que está acontecendo

O número exato de pessoas na região fronteiriça é desconhecido: guardas de fronteira belarussos afirmaram que são 2 mil pessoas, já as autoridades polonesas estimam esse número em até 4 mil

Ellen Francis e Robyn Dixon/ The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 15h00

Milhares de migrantes estão passando frio na fronteira entre Belarus e Polônia, encurralados por um impasse geopolítico entre os dois países do Leste Europeu.

A União Europeia — assim como a Polônia e o Departamento de Estado americano — acusa Belarus de enviar migrantes para a fronteira para pressionar os países vizinhos, uma alegação que o governo belorusso nega.

Enquanto isso, prestadores de ajuda humanitária alertam que refugiados vulneráveis estão presos nas geladas florestas entre os países.

O que está acontecendo na fronteira entre Belarus e Polônia?

O número exato de pessoas na região fronteiriça é desconhecido: guardas de fronteira belarussos afirmaram que são 2 mil pessoas, já as autoridades polonesas estimam esse número em até 4 mil.

Na Polônia, onde o partido governante sustenta uma posição linha-dura contra imigração, aproximadamente 12 mil soldados foram acionados para reforçar a segurança da fronteira, que o primeiro-ministro polonês visitou a área ao nascer do sol, na terça-feira. Vídeos compartilhados pelo Ministério da Defesa polonês um dia antes mostraram multidões aglomeradas atrás uma cerca, nas proximidades do vilarejo de Kuznica, com algumas pessoas tentando atravessar a barreira de arame farpado enquanto eram empurradas por guardas de fronteira.  

A batalha sobre migração na borda oriental da Europa deixa os solicitantes de asilo indo e vindo através das fronteiras. Alguns passam fome ou correm risco de hipotermia, de acordo com grupos de ajuda humanitária. Após várias pessoas morrerem nas regiões fronteiriças, autoridades de direitos humanos da ONU pediram no mês passado que os dois países não usem os refugiados como ferramentas políticas.

Como a União Europeia se envolve?

Líderes europeus acusam Belarus de aceitar a entrada de migrantes e estimulá-los a atravessar para Polônia e Lituânia, ambos países-membros da UE, para engendrar uma crise que descrevem como “um ataque híbrido”. 

Eles culpam o presidente belarusso, Alexander Lukashenko, que enfrenta sanções em razão da repressão contra aqueles que não aceitaram os resultados da eleição presidencial do ano passado e por ter forçado o pouso de um avião da Ryanair para prender um jornalista opositor, em maio.

Após as mais recentes sanções contra Minsk, o presidente alertou em junho que seu país não impediria mais a passagem de solicitantes de asilo, drogas ou artefatos nucleares para o bloco europeu, de 27 países-membros. 

Desde então, migrantes — incluindo cidadãos iraquianos, afegãos e de outros países do Oriente Médio e da África em busca de refúgio na Europa — tomaram voos para Minsk, para tentar a sorte cruzando a fronteira para a União Europeia por terra. Enquanto as permissões de entrada no bloco europeu são normalmente difíceis de obter, vistos para Belarus são concedidos na chegada ao país.

A UE, que restringiu o acesso a vistos para autoridades belarussas na terça-feira, está considerando aplicar mais sanções. A agência conjunta de controle fronteiriço do bloco,  Frontex, está pronta para prestar auxílio, mas a Polônia ainda não requisitou, afirmou Adalbert Jahnz, porta-voz da Comissão Europeia para migração.

Como isso afeta as relações entre Belarus e Polônia?

Esta crise envenenou ainda mais as já tensas relações entre Belarus e Polônia, que integra a Otan desde 1999. Autoridades de Varsóvia alertam que Belarus pode provocar uma escalada armada na fronteira para exercer mais pressão. 

As tensões, acumulando-se há meses, intensificaram-se na semana passada, quando a Polônia acusou guardas belarussos armados de violar a fronteira, avançando vários metros em seu território durante a noite.  

O Ministério de Relações Exteriores belarusso, por sua vez, acusou a Polônia de mentir para demonizar Belarus e elevar acentuadamente a tensão. Apoiada pela Rússia, Belarus nega ter provocado a crise, afirmando, em vez disso, que o país vizinho força, com suas medidas, os refugiados a ações desesperadas.

Mas mesmo antes dessa disputa, as relações entre Minsk e Varsóvia já tinham azedado, pois a Polônia recebeu de portas abertas ativistas belarussos que fugiram da punitiva repressão que se seguiu à eleição presidencial de agosto de 2020.

Anteriormente à eleição, Lukashenko garantia que ele era a única pessoa capaz de salvar o país dos tanques da Otan que avançam contra suas fronteiras, alegações rejeitadas por autoridades da Otan. 

Protestos ocorreram após a divulgação do contestado resultado eleitoral, na maior ameaça ao poder de Lukashenko desde que ele assumiu a presidência, em 1994. Lukashenko prendeu opositores, forçando ativistas a fugir para a Polônia e países vizinhos, de onde muitos deles ajudaram a coordenar o movimento de protesto em Belarus. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

 

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