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Adriana Carranca
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Crise na Síria: e o Brasil?

Guardas jogando comida às pessoas como se fossem porcos, crianças levando rasteiras, trens apinhados, famílias jogadas nos trilhos, gente marcada com números como gado, um menino de 3 anos morto na areia. O sofrimento alheio nos toma de dor a cada imagem e o mundo desperta para a tragédia dos refugiados. No rastro das cenas terríveis, assistimos a uma onda de compaixão e solidariedade - o contraponto à barbárie e à inércia, para nos deixar dormir de novo. Mas o que fazer? Ouvi a pergunta repetidas vezes na última semana, quase sempre carregada de aflição e sentimento de impotência. O Brasil é tão distante, afinal. Já temos tantos problemas. E a perda do grau de investimento, então? Nas crises, é natural olhar para dentro. Mas um país isolado é também menos democrático e relevante.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2015 | 02h02

Temos um papel no cenário externo e uma estrutura robusta e custosa aos cofres públicos para desempenhá-lo. A política externa não é prioridade do governo de Dilma Rousseff. Cortes nos gastos afetaram o Itamaraty. Mas menosprezar esse papel só contribui com o enfraquecimento do País e sua imagem já arranhada. A guerra na Síria já matou mais civis do que os conflitos no Iraque e Afeganistão juntos e ameaça desestabilizar toda a região. Não cabem políticas tímidas nesse cenário.

Sem solução para a guerra na Síria, o número de refugiados só crescerá. Turquia, Jordânia, Líbano e Iraque lidam há quase cinco anos com a crise que agora bate às portas da Europa e receberam 90% dos 4 milhões de sírios que deixaram o país. Seu espaço e serviços estão saturados. A ajuda necessária não chegou. É um caldeirão prestes a explodir. As condições sub-humanas nos campos levaram alguns milhares a arriscar tudo, lançando-se ao mar. Não há como contestar a urgência de uma resposta humanitária para essa tragédia.

O Brasil deve renovar a resolução do Ministério da Justiça, que vence no dia 24, garantindo vistos humanitários aos sírios. Dois mil sírios vivem hoje como refugiados no País. Uma política mais proativa poderia ampliar esse número. O Brasil poderia reassentar alguns dos que estão em campos precários das fronteiras sírias. Isso foi feito no passado com famílias palestinas refugiadas da Guerra no Iraque. A Força Interina das Nações Unidas no Líbano, que tem participação do Brasil no comando, deve estar atenta à possibilidade de resgates no Mediterrâneo, como feito esta semana. São medidas emergenciais necessárias.

Diplomacia. Mais importante, é preciso encontrar solução política. Não há alternativa para a Síria se não o fim do conflito, que entrará no quinto ano. O Itamaraty tem adotado política tímida nesse sentido. Na conferência de paz em Montreux, o governo não enviou o chanceler, mas outro representante, indicando que a Síria não era tema prioritário. No começo da crise, o Brasil chegou a enviar uma delegação, com Índia e África do Sul, para negociar com o presidente Bashar Assad. De potencial mediador, passou a coadjuvante.

As posições cautelosas do Brasil em relação à transição na Síria se provaram corretas, como atestam agora EUA e França. É uma oportunidade de resgatar sua posição em uma possível retomada das negociações, motivada pela pressão internacional diante do drama dos refugiados.

"Com a retomada das boas relações com os EUA e sendo parte do Brics, o Brasil pode ser um interlocutor entre potências com visões opostas e deve pleitear lugar nas mesas de negociações", diz Camila Asano, da ONG Conectas.

Há o imbróglio do Conselho de Segurança. Rússia e China usaram o veto em praticamente todas as resoluções contra a Síria, entre elas a criação de um corredor humanitário. A reforma é urgente. O modelo defendido pelo Brasil, de sua inclusão juntamente com Alemanha, Japão e Índia, é brando diante das necessidades, pois não mexeria no poder do núcleo forte. Uma nova proposta da França prevê a limitação do veto em caso de crimes de atrocidade e o Brasil deve apoiá-la. Para ser relevante no cenário global, o Brasil não pode se furtar do envolvimento nessa crise.

ADRIANA CARRANCA

 

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