Crise na Turquia sacode a UE

A Turquia passa por um período de turbulência e a União Européia (UE) também é sacudida. Dois incidentes acabam de ocorrer no país. Duas bombas, possivelmente plantadas por rebeldes curdos, explodiram em Istambul no domingo, deixando 17 mortos. No dia seguinte, a Corte Constitucional reuniu-se para examinar a possível proscrição do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), que está atualmente no poder e prega um islamismo moderado. Se a corte decidir pela proscrição, será uma crise grave: o país ficará sem governo. Além disso, o presidente Abdullah Gull e o premiê Recep Erdogan ficariam inelegíveis por cinco anos.Os dois fatos estão ligados? Aparentemente não, mas nunca se sabe. Seja o que for, vamos separar um do outro e falar apenas da possível crise constitucional. Para começar, um pouco de história: a Turquia tem uma originalidade extraordinária com relação a todos os outros países muçulmanos - é um país laico desde que Mustafa Kemal Ataturk o arrancou do sultanato e criou uma república secularista, em 1918. Desde então, o dogma do secularismo se tornou de aço: cada vez que surge o risco de um retorno ao Estado religioso, a reação é vigorosa.E os setores laicos da sociedade são poderosos. Formam um Estado dentro do Estado, composto de altos funcionários e militares. No passado, por diversas vezes esse "Estado" bloqueou os religiosos que queriam retomar o poder. E é o que ocorre agora: foi sob a pressão desse "Estado" que a Corte Constitucional se reuniu para discutir a dissolução do AKP, que desde 2007 está no poder. Por que há agora o temor de um retorno dos integristas e o pedido de proscrição? O governo de Erdogan sempre se qualificou como "religioso moderado". Mas, aos olhos suscetíveis dos militares e laicos, ocorreram duas mudanças. A primeira diz respeito à UE. O governo de Erdogan buscou obter a entrada da Turquia na UE, o que prova que ele está separado dos religiosos islâmicos, violentamente hostis ao bloco. Mas a UE, em vez de abrir as portas à Turquia, não pára de colocar novos obstáculos a essa entrada.A segunda mudança está no fato de que a Turquia trabalha em favor de um islamismo cada vez mais agressivo. Disputas como a do uso do véu nas universidades mostram isso. É por essa razão que o Exército, convencido de que a Turquia de Erdogan está contaminada pelo islamismo, obrigou a Justiça a analisar a possível proscrição do AKP.A Europa poderia ter evitado isso. Sobretudo Nicolas Sarkozy, que preside a UE. Mas ele foi um dos líderes mais virulentos contra a entrada da Turquia no bloco. Agora, pisa em ovos. Tentará não fazer nada que piore o drama turco. Não quer ser acusado de ter precipitado esse grande país numa crise tão grave e o bloco europeu em convulsões.*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.