Capt. Alun Thomas / US Department of State/AFP
Capt. Alun Thomas / US Department of State/AFP

Crise na Ucrânia: EUA mandarão 3 mil soldados da Otan para Alemanha, Polônia e Romênia

Tropas incluem especialistas em brigadas de combate, logística de solo e aérea, equipe médica e de inteligência, além de soldados para missões de reconhecimento e vigilância.

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2022 | 12h09
Atualizado 02 de fevereiro de 2022 | 21h30

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, aprovou nesta quarta-feira, 2, o envio de mais 3 mil soldados americanos para Alemanha, Polônia e Romênia, em meio à crise entre Rússia, a Otan e a Ucrânia. O anúncio ocorre um dia depois de o presidente russo, Vladimir Putinacusar os EUA de estarem levando a Rússia para um confronto armado. Os russos exigem que a Otan dê garantias de que a Ucrânia não se juntará ao bloco e pede que militares ocidentais deixem o Leste Europeu.

Segundo o Pentágono, 1,7 mil homens partirão da base de Fort Bragg, na Carolina do Norte, para a Polônia, junto com 300 soldados de uma base americana para a Alemanha. Outros mil soldados estacionados na Alemanha serão enviados à Romênia. Biden já havia deixado de prontidão 8,5 mil homens em virtude da crise na Ucrânia.

Entre os militares enviados para a Polônia e a Romênia, estão especialistas em brigadas de combate, logística de solo e aérea, equipe médica e de inteligência, além de soldados para missões de reconhecimento e vigilância.

Segundo o Pentágono, mais militares podem ser enviados para o Leste Europeu nos próximos dias."É importante mandar um sinal forte para Putin e ao mundo que a Otan importa para os Estados Unidos e para nossos aliados.", disse o porta-voz do Departamento de Defesa John Kirby. O anúncio ocorre depois de o Departamento de Defesa alertar o presidente para o deslocamento de tropas russas no entorno da Ucrânia.

A Rússia denunciou o fortalecimento da presença militar dos Estados Unidos como um passo "destrutivo" na busca de soluções diplomáticas para as tensões na região. "O anúncio é uma decisão injustificada, que aumentará a tensão e reduzirá o espaço para decisões políticas", disse o vice-chanceler russo, Alexander Grushko, citado pela agência russa Interfax.

Putin também teve uma nova conversa telefônica com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, nesta quarta-feira. Os argumentos de ambos os governos não mostraram nenhum progresso, com Putin dizendo que o Ocidente não estava dando terreno às preocupações de segurança da Rússia e Johnson expressando profunda preocupação com a “atividade hostil” da Rússia na fronteira ucraniana.

Novas imagens de satélite divulgadas nesta quarta-feira sugerem que a Rússia enviou mais tropas para seus agrupamentos militares em Belarus, na Crimeia e no oeste de seu próprio território, segundo a Maxar Technologies, empresa americana.

Os EUA já têm milhares de soldados na Polônia, e a Romênia abriga um sistema de defesa antimísseis da Otan que a Rússia considera uma ameaça à sua segurança. Biden notavelmente não enviou reforços militares americanos para os três países bálticos no flanco leste da Otan - Estônia, Letônia e Lituânia - que são ex-estados da antiga União Soviética.

Kirby disse que a França decidiu que também enviará reforços de tropas para a Romênia sob o comando da Otan, e observou que vários outros países europeus da Otan estão considerando adicionar forças no flanco leste da Otan.

A Otan vem reforçando suas defesas em torno de aliados na Europa Oriental desde o fim do ano passado. A Dinamarca, por exemplo, disse que estava enviando uma fragata e aviões de guerra F-16 para a Lituânia, e a Espanha estava enviando quatro caças para a Bulgária e três navios para o Mar Negro para se juntar às forças navais da Otan. A Holanda planeja enviar dois caças F-35 para a Bulgária em abril e está colocando um navio e unidades terrestres de prontidão para a Força de Resposta da Otan.

Biden disse que não colocará tropas americanas na Ucrânia para combater qualquer incursão russa, embora os Estados Unidos estejam fornecendo à Ucrânia armas para se defender e buscando tranquilizar os aliados na Europa Oriental de que Washington cumprirá sua obrigação do tratado de defendê-los no caso de invasão. A Ucrânia não é membro da Otan e, portanto, os EUA não têm a obrigação do tratado de vir em sua defesa.

Entenda a crise na Ucrânia

Para entender a crise envolvendo a UcrâniaRússia, os Estados Unidos e a Otan, é preciso retornar ao fim da Guerra Fria. Com o colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu, a aliança militar entre europeus e americanos avançou rumo a leste, com países que antes eram da esfera soviética passando à zona de influência ocidental. 

Com a ascensão de Vladimir Putin ao poder na Rússia, em 2000, lentamente começou uma reação russa no sentido de conter essa expansão para o leste. Isso ocorreu porque, para Putin, é fundamental uma espécie de 'zona-tampão' entre a Rússia e o Ocidente para a defesa estratégica de seu país.

Diante disso, primeiro, o Kremlin trabalhou para desestabilizar governos pró-Ocidente na Ucrânia e no Caucaso, ainda na primeira década deste século.Em ambos os casos, o alinhamento com a Otan e o Ocidente fazia parte da plataformas de governos como o de Viktor Yuschenko e Mikhail Saakshvilli.

Em 2008, a Guerra da Geórgia evidenciou a tensão pela primeira vez, com Putin apoiando separatistas pró-Rússia de pequenas regiões do país para desestabilizar o governo pró-Otan de Saakshvilli. Em 2014, a Rúsia anexou a Crimeia e fomentou a ação de separatistas em Donetsk e Luhansk. 

O governo Biden e os aliados da Otan afirmam que Putin não pode negar à Ucrânia o direito de se aliar ao bloco. A adesão de qualquer dos países à aliança aumentaria a presença da Otan ao longo das fronteiras russas, mas não há nada no horizonte para garantir a adesão do país proximamente.  No fim do ano, no entanto, Putin voltou a acusar a Otan de tentar incorporar a Ucrânia à aliança. / AFP, AP e NYT

 

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