Tobias SCHWARZ / AFP
Olaf Scholz, em foto de novembro de 2021; chanceler viaja a Washington tentando conter críticas por falta de posicionamentos sobre a Ucrânia. Tobias SCHWARZ / AFP

Crise na Ucrânia: Olaf Scholz viaja a Washington para superar imagem de 'invisível'

Criticado por não se posicionar durante a crise envolvendo Otan e Rússia na Ucrânia, chanceler abre agenda internacional, que terá passagens por Moscou e Kiev, com viagem aos EUA

Katrin Bennhold,The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 11h40

BERLIM - Uma manchete perguntou: "Onde está Olaf Scholz?". Uma revista popular zombou da "arte do desaparecimento" do chanceler alemão. E sua embaixadora em Washington o escreveu alertando que a Alemanha era vista cada vez mais como um aliado não confiável, em um memorando vazado que gerou um burburinho na semana passada e começou com as palavras: "Berlim, temos um problema".

Com a ameaça de guerra pairando sobre a Europa em meio ao acirramento das tensões no impasse com a Rússia sobre a Ucrânia, o chanceler alemão Olaf Scholz viaja a Washington nesta segunda-feira, 7, para seu primeiro encontro com o presidente Joe Biden desde que assumiu o cargo em dezembro. O principal ponto de sua agenda: mostrar ao mundo que Berlim está comprometida com a aliança ocidental - e, em certa medida, para mostrar seu próprio rosto.

Menos de dois meses depois de assumir o cargo de Angela Merkel, Scholz está recebendo fortes críticas em seu país e no exterior pela falta de liderança em uma das mais graves crises de segurança na Europa desde o fim do Guerra Fria.

Seu governo, uma coalizão inédita liderado pelos social-democratas com os Verdes e os Democratas Livres, se recusou a enviar armas para a Ucrânia, tendo oferecido mais recentemente 5 mil capacetes, e tem sido cauteloso sobre o tipo de sanções que poderiam ser impostas no caso de uma invasão russa.

Quanto ao chanceler, ele se tornou claramente mais sumido nas últimas semanas - com uma presença pública tão escassa que a revista Der Spiegel o descreveu como "quase invisível, inaudível".

Enquanto o presidente Emmanuel Macron, da França, e o primeiro-ministro Mario Draghi, da Itália, estão ocupados ligando para o presidente russo, Vladimir Putin, Scholz até agora não visitou ou fez uma ligação sequer para Moscou. Ele ainda não foi a Kiev e sua visita a Washington, nota-se, levou quase dois meses para ser organizada.

Na semana passada, Emily Haber, embaixadora da Alemanha nos Estados Unidos, enviou um memorando a Berlim, alertando para os danos "imensos" à reputação da Alemanha. Não foram apenas os meios de comunicação, mas muitos representantes no Congresso dos EUA que questionaram a confiabilidade do país, relatou ela. Na opinião de muitos republicanos, ela escreveu, Berlim está "na cama com Putin" para manter o fornecimento de gás.

Não ajudou que, desde então, Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão social-democratas, acusou a Ucrânia de ameaças militares vazias, e na sexta-feira anunciou que se juntaria ao conselho da Gazprom, a empresa de energia mais proeminente da Rússia.

"A missão central de Scholz para sua visita a Washington deve ser restaurar a credibilidade alemã", disse Thorsten Benner, fundador e diretor do Global Public Policy Institute em Berlim.

"Não é como Scholz imaginou sua primeira viagem aos EUA como chanceler", acrescentou Benner. "Mas a segurança internacional nunca esteve no topo de sua agenda."

Scholz, 63 anos, é uma figura familiar na política alemã há mais de duas décadas. Ele foi secretário-geral de seu partido e prefeito da cidade portuária de Hamburgo, antes de servir em dois governos liderados pelos conservadores de Merkel - chegando a vice-chanceler e ministro de Finanças no último governo.

Advogado trabalhista e social-democrata de longa data, Scholz venceu a eleição no ano passado com uma plataforma que prometia "respeito" aos trabalhadores e um salário mínimo mais alto, enquanto empurrava a Alemanha para um futuro neutro em carbono.

A política externa mal apareceu em sua campanha eleitoral, mas passou a dominar as primeiras semanas do novo governo. Poucas vezes um líder alemão assumiu o cargo com tantas crises. Assim que Scholz assumiu o lugar de Merkel no início de dezembro, ele teve que lidar não apenas com o ressurgimento da pandemia, mas também com um presidente russo mobilizando tropas nas fronteiras da Ucrânia.

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"Não era o plano", disse Thomas Kleine-Brockhoff, vice-presidente do escritório de Berlim do German Marshall Fund. "Este é um governo que se formou em torno de um plano ambicioso de transformação industrial, mas a realidade de um mundo em crise interferiu em seus planos".

De todas as crises, o impasse com a Rússia se mostrou particularmente desconfortável para Scholz. Seu partido tradicionalmente favorece uma política de trabalhar com Moscou. Durante a Guerra Fria, o chanceler Willy Brandt projetou a "Ostpolitik", uma política de reaproximação com a Rússia.

O último chanceler social-democrata, Schröder, não é apenas um amigo próximo de Putin, ele também está na folha de pagamento de várias empresas de energia russas desde 2005, notadamente Nord Stream 1 e Nord Stream 2, os dois gasodutos que ligam Rússia diretamente com a Alemanha pelo Mar Báltico.

Foi só na semana passada, após os comentários de Schröder sobre a Ucrânia, que Scholz se sentiu compelido a se distanciar publicamente do ex-chanceler. "Há apenas um chanceler, e esse sou eu", disse ele à emissora pública ZDF.

As divisões da legenda sobre a Rússia são uma maneira de explicar por que Scholz se esquivou de assumir uma liderança mais ousada no impasse com a Rússia - levando alguns a lamentar a perda da liderança de Merkel neste momento.

Scholz ganhou a eleição no ano passado principalmente por convencer os eleitores de que ele seria muito parecido com a ex-chanceler. Conciso, bem informado e abstendo-se de qualquer gesto de triunfo, ele não apenas aprendeu a soar como a antiga aliada, como também imitou sua linguagem corporal.

Mas agora que ele está governando o país, isso não é mais suficiente. Os eleitores alemães estão ansiosos para que Scholz se revele, e cada vez mais impacientes para saber quem ele é e o que ele realmente representa.

À medida que a crise atual se desenrola, a imitação de Merkel por Scholz também é cada vez menos convincente. Ela era discreta e estudiosa, e muitas vezes mantinha seu trabalho nos bastidores, mas não era invisível.

Em 2014, depois que Putin invadiu a Crimeia, Merkel estava ao telefone com o líder russo quase todos os dias. Foi Berlim que uniu vizinhos europeus relutantes por trás de sanções custosas e persuadiu o presidente Barack Obama, distraído por assuntos internos, a se concentrar em um conflito distante.

A essa altura, é claro, Merkel já era chanceler há nove anos e conhecia bem todos os protagonistas.

"A crise veio muito em cedo para Scholz", disse Christoph Heusgen, diplomata veterano e conselheiro de política externa de Merkel durante a última crise na Ucrânia.

Os conselheiros de Scholz ficaram surpresos com o nível das críticas recebidas, argumentando que o chanceler estava apenas fazendo o que Merkel fazia com tanta frequência: tornar-se discreto e manter as pessoas tentando adivinhar o que está se passando, enquanto se envolve em diplomacia silenciosa até obter um resultado.

Quando Scholz falou sobre a crise atual - referindo-se ao gasoduto Nord Stream 2, de propriedade russa, como um "projeto do setor privado" antes de dizer que "tudo" estava na mesa - ele reciclou visivelmente a linguagem que Merkel usou anteriormente.

Mas, dada a escalada da crise atual, essa linguagem está desatualizada há muito tempo, dizem os analistas.

"Ele aprendeu demais o estilo Merkel", disse Kleine-Brockhoff, do German Marshall Fund. "Ele é Merkel-plus, e isso não funciona em uma crise."

Depois de enfrentar críticas crescentes de Kiev e de outras capitais do Leste Europeu, a liderança de Scholz também está sendo cada vez mais questionada em casa.

Em uma pesquisa recente da Infratest Dimap, o índice de aprovação pessoal de Scholz despencou 17 pontos porcentuais, para 43%, comparado a 60% no início de janeiro, o declínio mais acentuado para um chanceler na história do pós-guerra, diz a empresa. O apoio a seus social-democratas caiu para 22%, ficando atrás dos conservadores pela primeira vez desde a surpreendente vitória eleitoral do ano passado.

A equipe de Scholz anunciou que, depois de voltar de Washington, o chanceler vai se concentrar em uma agenda cheia que ele espera que coloque a diplomacia alemã em alta velocidade. Após sua reunião com Biden, ele se reunirá com Macron, com o presidente polonês, Andrzej Duda, e os três líderes dos Estados Bálticos. Na semana seguinte, ele viajará para Kiev e Moscou, nessa ordem.

Diplomatas de alto escalão dizem que já é hora de tal virada, começando com a visita de segunda-feira à Casa Branca.

Scholz tem um aparente aliado de centro-esquerda em Biden, que até agora se absteve de criticar Berlim publicamente. Desde o segundo mandato do presidente Bill Clinton, tanto a Casa Branca quanto a chancelaria alemã não estiveram nas mãos de líderes de centro-esquerda ao mesmo tempo e, apesar de todas as hesitações do lado alemão, as duas administrações estiveram em contato próximo o tempo todo.

Mas a paciência está se esgotando, e Scholz terá que trazer algo para a mesa.

"Tem que haver um sinal visível de compromisso com a aliança", disse Kleine-Brockhoff. "É isso que outros aliados estão fazendo: os espanhóis, os países bálticos, os poloneses, os britânicos - todos ofereceram algo para fortalecer a dissuasão no flanco leste."

Em uma entrevista televisionada antes de partir para os Estados Unidos no domingo, Scholz deu a entender que a Alemanha pode reforçar sua presença de tropas na Lituânia. Ele também mencionou a possibilidade de patrulhas aéreas adicionais na Europa Oriental e Central.

Tão importante quanto qualquer compromisso material pode ser as palavras que Scholz usa - ou não usa - para comunicar publicamente esse compromisso.

"Talvez pela primeira vez ele possa mencionar o Nord Stream 2 pelo nome ao falar sobre possíveis sanções", disse Kleine-Brockhoff.

"Ele precisa fazer uma declaração clara de que a Alemanha entende a situação e ficará com seus aliados."

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Crise na Ucrânia: Macron tenta evitar uma guerra na Europa e reformular a segurança no continente

As visitas diplomáticas do presidente francês nesta semana em Moscou e Kiev serão um exercício delicado, dadas as reservas europeias e a determinação americana

Roger Cohen e Andrew Kramer, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 10h00
Atualizado 07 de fevereiro de 2022 | 11h43

PARIS - O impasse com a Rússia sobre a Ucrânia entra em uma fase crítica esta semana. Os Estados Unidos mobilizaram a Otan e moveram forças para o leste. Moscou preparou ainda mais forças na fronteira com a Ucrânia. Mas sob essas tensões, vias diplomáticas estão sendo exploradas e os contornos de soluções potenciais podem estar tomando forma.

O presidente americano Joe Biden se reúne nesta segunda-feira com o chanceler alemão Olaf Scholz, e o presidente Emmanuel Macron da França, ao mesmo tempo, visitará seu colega russo, Vladimir Putin, em Moscou antes de viajar para Kiev.

Com o governo Biden apostando na linha dura, a Alemanha na retaguarda e Putin aparentemente determinado a forçar uma solução para as queixas de segurança da Rússia, é Macron quem se posicionou no centro da diplomacia na Europa. Para Moscou, Macron é um "interlocutor de qualidade", como Putin afirmou sobre o presidente francês, segundo um alto funcionário da presidência francesa, falando sob condição de anonimato.

Para Macron, a chance de liderar o esforço para criar uma nova arquitetura de segurança europeia o colocou à frente do debate na crise da Ucrânia, talvez no maior palco de sua presidência, a apenas dois meses antes das eleições presidenciais francesas. Deu a ele também a oportunidade de assumir um papel de liderança maior para toda a Europa e de dar corpo às suas visões às vezes grandiosas de uma Europa aliada, mas mais independente, dos Estados Unidos.

“Queremos uma Rússia totalmente alinhada com a China ou uma que esteja em algum lugar entre a China e a Europa?”, disse Bruno Le Maire, o ministro da Economia francês, que é muito próximo de Macron, no dia em que Rússia e China declararam uma amizade “sem limites” e pediram à Otan que “abandone suas abordagens ideologizadas da Guerra Fria”.

Para a França, o abraço coreografado de Putin e do presidente Xi Jinping da China na véspera dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim foi uma demonstração das ramificações mais amplas e ameaçadoras da crise na Ucrânia, enquanto Macron embarca em vários dias de intensa diplomacia.

Os riscos são tão grandes quanto os possíveis retornos para Macron. As soluções para a crise parecem fora de alcance por enquanto, mesmo que Putin tenha parecido menos ameaçador em relação à Ucrânia na semana passada.

O presidente francês tem um duplo propósito: parar a guerra que ameaça uma concentração em massa de tropas russas na fronteira ucraniana; e acalmar os ressentimentos russos que a expansão da Otan para o leste em 1999 e 2004 provocou, com o objetivo final de integrar a Rússia em um novo sistema de segurança europeu que compense sua guinada em direção à China.

É uma tarefa difícil. “Há frustração nos países europeus, incluindo a Alemanha, com a tendência de Macron de seguir em frente e depois gritar com eles por não fazerem nada”, disse Jeremy Shapiro, ex-funcionário do Departamento de Estado que agora é diretor de pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “Isso o enfraquece.”

Autoridades francesas descreveram em linhas gerais as abordagens duplas que Macron adotaria em suas reuniões com Putin e o presidente Volodimir Zelenski, da Ucrânia.

A primeira é reforçar o Formato da Normandia – conversas regulares entre França, Alemanha, Ucrânia e Rússia que acontecem em alguma medida desde a anexação da Crimeia pelos russos em 2014. O objetivo é reforçar o acordo Minsk 2 de 2015, um documento ambíguo que garantiu um cessar-fogo no leste da Ucrânia, mas que se mostrou amplamente inoperável, principalmente porque ninguém concorda com o seu significado.

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Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Alguma interpretação do acordo, envolvendo os eventuais poderes da região separatista de Donbas sobre a política nacional, poderia satisfazer a insistência de Putin de que a Ucrânia nunca se juntaria à Otan, uma demanda que os Estados Unidos e seus aliados, incluindo a França, são inflexíveis em aceitar.

A segunda, em estreita parceria com o presidente americano Joe Biden, é garantir um sinal concreto que reverta a escalada militar russa e, como meio de conseguir isso, explorar qual é a “linha vermelha” final de Putin no confronto.

Um alto funcionário da presidência francesa que falou ao The New York Times disse que o núcleo do conflito ocidental com Putin está “na extensão da Otan e na inclusão nela de países do antigo espaço soviético”, o que criou “uma área de volatilidade que deve ser reduzida." Ele acrescentou que Putin disse a Macron que queria “uma conversa de substância” que fosse “ao cerne da questão”.

Com efeito, a França parece estar dizendo que as demandas de Putin, que incluem empurrar a Otan para fora dos países anteriormente controlados pelos soviéticos, nunca podem ser satisfeitas, mas que chegar “ao cerne da questão” envolve o reconhecimento de que a expansão da Otan criou problemas permanentes com a Rússia.

Ninguém acredita que a Romênia, a Lituânia e outros estados que aderiram à expansão da Otan vão deixá-la, ou que a aliança vá vai revogar sua declaração de Bucareste de 2008 de que a Ucrânia “se tornará” membro da Otan. Mas, como ilustra o flerte de quase 60 anos da Turquia com a União Europeia, há maneiras de transformar uma candidatura a membro de uma organização em um padrão de retenção indefinido.

“Podemos dar um passo em direção a Putin, reconhecer que ele não está completamente errado”, disse Justin Vaisse, ex-chefe de planejamento de políticas do Ministério das Relações Exteriores da França que agora lidera o Fórum da Paz de Paris.

O alto funcionário da presidência francesa disse: “A Ucrânia não é membro da Otan e, que eu saiba, não será por um bom tempo”.

Macron quer explorar se as ofertas americanas do mês passado podem ser complementadas por mais medidas de fortalecimento da confiança que permitam uma saída para a crise.

A proposta americana envolvia mais transparência sobre a implementação de mísseis na Europa Oriental e um pedido de compromissos recíprocos por parte dos Estados Unidos e da Rússia para evitar a implementação de mísseis ou tropas na Ucrânia. Putin rejeitou a resposta americana às suas exigências como inadequada.

“É concebível que as ofertas de controle de armas possam ser combinadas com algum tipo de mecanismo consultivo para mudanças no status da Otan, ou algum tipo de moratória sobre a expansão da Otan, ou alguma interpretação criativa do acordo de Minsk que dá poderes de veto a uma assembleia constituinte de Donbas sobre o que o governo fará”, sugeriu Shapiro, ex-funcionário do Departamento de Estado.

Nada disso parece provável, no entanto, dada a ameaça direta de Putin à Ucrânia, sua anexação da Crimeia, sua invasão da Geórgia na curta guerra de 2008 e seu histórico de rasgar tratados quando lhe convier. O governo Biden, com uma diplomacia proativa, sinalizou que não está disposto a fazer concessões.

Putin é apenas o mais recente expoente do que Joseph Conrad chamou de "desdém quase sublime pela verdade" do oficialismo russo.

Apesar disso, Macron, que sabe que uma invasão russa da Ucrânia elevaria os custos do gás em um momento em que o eleitorado francês está indignado com a perda do poder de compra, vê algum potencial no formato da Normandia. Uma primeira reunião no mês passado terminou com progresso, uma segunda reunião está agendada para breve e uma cúpula de líderes franceses, alemães, russos e ucranianos foi sugerida.

O acordo Minsk 2 exige uma “descentralização” da Ucrânia que confere “status especial” a áreas do leste agora controladas por separatistas, com as “especificidades” a serem acordadas “com representantes dessas áreas”.

A Rússia, em uma interpretação criativa dessas “especificidades”, argumentou que elas deveriam incluir a concessão de veto aos representantes eleitos nessas áreas nas decisões de política externa ucraniana, incluindo a adesão à Otan. Dessa forma, a Ucrânia se tornaria efetivamente parte da esfera de influência da Rússia. "Isso não vai acontecer", disse Dmytro Kuleba, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, na semana passada. "Nunca."

Zelenski, o presidente ucraniano, soou mais ambivalente. “Se não é a Otan, então aponte para algumas outras garantias de segurança”, disse ele no mês passado. Não ficou claro o que ele tinha em mente.

As “garantias de segurança” oferecidas pelo Memorando de Budapeste de 1994, no qual a Rússia prometeu respeitar as fronteiras e a soberania existentes da Ucrânia, provaram ser inúteis.

Na ausência de outros caminhos, o Formato Normandia pelo menos une as partes. Shapiro argumentou que isso poderia ajudar a criar estabilidade.

“A instabilidade é a força russa. A estabilidade é o nosso forte”, disse. “A Otan e a expansão da União Europeia foram uma forma muito poderosa de garantir a democracia nos países do Leste Europeu. Mas nós saímos disso o quanto podíamos. Se você acredita na superioridade do modelo econômico e político ocidental, como eu, a estabilidade torna isso evidente, e as esferas de influência são uma boa maneira de estabelecer isso.”

Putin, disse a autoridade francesa, "querer visibilidade de longo prazo" na Ucrânia e na Europa. Isso parece deixar Macron jogando um jogo potencialmente perigoso, tentando equilibrar a “nova ordem de segurança europeia” que ele disse buscar com seu compromisso com os Estados Unidos e a aliança da Otan.

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