Crise na Ucrânia: Rússia expulsa vice-embaixador dos Estados Unidos

Crise na Ucrânia: Rússia expulsa vice-embaixador dos Estados Unidos

Autoridades americanas consideraram a ação um "passo de escalada" que pode limitar as soluções diplomáticas para a crise nas fronteiras da Ucrânia

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2022 | 13h05
Atualizado 17 de fevereiro de 2022 | 15h15

WASHINGTON - Em meio ao agravamento das tensões na fronteira da Ucrânia, a Rússia expulsou o vice-embaixador dos Estados Unidos do país, informou o Departamento de Estado americano nesta quinta-feira, 17.  Autoridades americanas chamaram o movimento de um "passo de escalada" que pode limitar as soluções diplomáticas para a crise no Leste Europeu.

O número dois da diplomacia americana, Bart Gorman, estava na Rússia há cerca de três anos em uma viagem diplomática, disse um funcionário do Departamento de Estado que falou ao jornal The New York Times sob condição de anonimato. O visto de Gorman para a Rússia ainda era válido e sua expulsão “não foi provocada”, disse.

A expulsão de Gorman de Moscou ocorre em um momento de novo acirramento entre a Otan e a Rússia sobre o impasse na Ucrânia. Militares ucranianos e separatistas pró-Rússia trocaram acusações de ataques nas últimas 24h, e autoridades russas circularam documentos relatando atrocidades cometidas no leste da Ucrânia por forças ucranianas.

Ante os desdobramentos, a Casa Branca e o comando da Otan alertaram sobre a possibilidade da Rússia utilizar as tais atrocidades -- que diplomatas ocidentais dizem ser falsas, sem registro nos monitores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) -- como pretexto para invadir a Ucrânia.

O presidente americano, Joe Biden, voltou a afirmar, nesta quinta, que uma invasão russa é iminente e que ele acredita que uma operação militar já esteja em andamento "Todas as indicações que temos são de que eles estão preparados para entrar na Ucrânia, atacar a Ucrânia. Minha sensação é que isso acontecerá nos próximos dias".

Enquanto isso, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, afirmou que a capacidade militar russa está apenas aumentando em número e força nas imediações da Ucrânia - ao contrário do movimento de retirada prometido pelo Kremlin nos últimos dias. Stoltenberg acenou com a possibilidade da aliança militar enviar reforços para o leste, principalmente para países que fazem fronteira com a Ucrânia.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, tanto o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Vershinin, quanto o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, vão discursar no conselho de segurança da ONU ainda hoje.

Em Moscou, os EUA continuam representados pelo seu principal enviado à Rússia, o embaixador John J. Sullivan. Nesta quinta-feira, Sullivan recebeu a resposta por escrito do governo russo às propostas de Joe Biden para aliviar as tensões e melhorar a segurança na Europa.

O Departamento de Estado está considerando quais medidas tomará em resposta, disse o funcionário, observando que o vice-embaixador russo em Washington deixou seu cargo no mês passado, no que foi descrito como o final de sua rotação regular.

Não ficou imediatamente claro qual justificativa Moscou deu para a expulsão, mas ocorre durante um impasse de meses sobre um acúmulo russo de mais de 150 mil soldados perto de sua fronteira com a Ucrânia.

O número de diplomatas americanos e outros funcionários da Embaixada dos EUA em Moscou e consulados na Rússia é muito menor do que o das missões russas nos Estados Unidos, disse o funcionário. O Departamento de Estado exigiu que a Rússia “pare com as expulsões infundadas” de seus funcionários diplomáticos.

"Pedimos à Rússia que encerre suas expulsões infundadas de diplomatas e funcionários dos EUA e trabalhe de forma produtiva para reconstruir nossas missões", disse o porta-voz do Departamento de Estado. "Agora, mais do que nunca, é fundamental que nossos países tenham o pessoal diplomático necessário para facilitar a comunicação entre nossos governos."

Juntamente com as tensões na fronteira, os Estados Unidos e a Rússia estão envolvidos em uma disputa por suas respectivas presenças diplomáticas nas capitais uns dos outros. Moscou disse em dezembro que funcionários da embaixada dos EUA que estão no cargo há mais de três anos devem voltar para casa.

Acusações de desinformação

Na carta entregue ao embaixador americano, a Rússia lamentou a recusa do Ocidente em atender às principais demandas e segurança russas e reafirmou que Moscou poderia tomar "medidas técnico-militares" não especificadas se os EUA e seus aliados continuarem a ignorar suas preocupações.

Ao mesmo tempo, disse que a Rússia está pronta para discutir medidas para aumentar a segurança na Europa, discutindo limites na implantação de mísseis, restrições em voos de patrulha de bombardeiros estratégicos e outras medidas de construção de confiança.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, foi para Nova York para a reunião do Conselho de Segurança da ONU e depois irá para a Alemanha para a Conferência de Segurança de Munique.

A Rússia garantiu nos últimos dois dias que está retirando parte de suas tropas da fronteira e encerrando os exerícios militares na península da Crimeia. Mas, segundo a Otan, o que se tem visto é o movimento contrário, de aumento das tropas.

“Vimos algumas dessas tropas se aproximarem dessa fronteira. Nós os vemos voar em mais aeronaves de combate e apoio”, disse o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, na sede da Otan em Bruxelas. “Nós os vemos aguçar sua prontidão no Mar Negro. Nós até os vemos estocando seus suprimentos de sangue. Você não faz esse tipo de coisa sem motivo, e certamente não as faz se estiver se preparando para fazer as malas e ir para casa.

O secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, disse que o Ocidente viu “um aumento de tropas nas últimas 48 horas, até 7.000”. Isso está de acordo com o que um funcionário do governo dos EUA disse um dia antes. 

O ministro das Forças Armadas britânicas, James Heappey, até chamou a alegação da Rússia de retirar as tropas de “desinformação”. A Rússia acusa o Ocidente do mesmo.

A Rússia tem “tropas suficientes, capacidades suficientes para lançar uma invasão completa da Ucrânia com muito pouco ou nenhum tempo de aviso”, disse o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg. “O fato de você estar colocando um tanque de guerra em um trem e movendo-o em alguma direção não prova uma retirada de tropas.”/AP, NYT, REUTERS e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.