Crise na Ucrânia traz de volta fantasma do separatismo

Na véspera da crucial sessão desta segunda-feira do Supremo Tribunal - que julgará o recurso da oposição para anular a eleição do dia 21 - e um dia depois de o Parlamento ter considerado inválida a votação, a ameaça de separatismo soma-se agora às pressões políticas na Ucrânia. Líderes das regiões do leste e do sul do país, mais ligados à Rússia, aprovaram hoje uma proposta de realizar no domingo, dia 5, um referendo sobre autonomia.A proposta surgiu durante a reunião do Conselho Regional de Donetsk, que congrega líderes das regiões de idioma russo da Ucrânia. O primeiro-ministro, declarado vencedor da contestadaeleição presidencial, Viktor Yanukovich, acompanhou o encontro e testemunhou quando os delegados votaram por 164 a um a favor de"um referendo a ser promovido em dezembro deste ano para determinar o status da região".Yanukovich - que é abertamente apoiado por Moscou - se distanciou da proposta de referendo. A autonomia contraria a Constituição e preocupa nacionalistas e liberais, uma vez que ela seria vista como um fracasso nacional 13 anos depois de a Ucrânia ter conquistado a independência da União Soviética.Antes, Yanukovich havia recebido o apoio dos 165 líderes regionais em sua disputa com o candidato da oposição, Viktor Yushchencko, que alega ter tido sua vitória na eleição do dia 21 roubada por fraudes generalizadas que beneficiaram o governista. Yushchencko exige a anulação da votação a realização de nova eleição no dia 12."Como primeiro-ministro, digo que estamos à beira de uma catástrofe. Estamos a um passo do abismo", disse Yanukovich aos líderes regionais. "Peço que não tomem nenhuma atitude radical. Eu repito, nenhuma... Quando a primeira gota de sangue cair, não conseguiremos parar isso."Yanukovich também disse aos delegados que a economia poderia ser afetada pelos protestos de partidários de Yushchenko. A tensão aumentou no encontro, com os delegados criticando os EUApor interferirem nas questões da Ucrânia e aplaudindo de pé o prefeito de Moscou, Yuri Lujkov. Alguns sugeriram que o paísestaria melhor se a região oriental fosse parte da Rússia. Mais de 5 mil manifestantes se concentraram do lado de fora da prefeitura.Yushchenko pediu aos seus partidários que ficassem firmes. "Esses líderes, que perderam a eleição, hoje estão jogando uma cartada muito perigosa - o separatismo", disse ele às multidõesem Kiev. "Esses líderes que estão pedindo separatismo estão cometendo um crime e devem ser severamente punidos."Divisão centenária - A crise que se seguiu à eleição enfatizou a divisão centenária entre o leste de língua russa e o ocidente de língua ucraniana. O leste, cujas indústrias química, metalúrgica e de aço geram a maior parte da riqueza ucraniana, é cristão ortodoxo, enquanto oocidente, onde predomina a pequena indústria e a agricultura, é formado por ortodoxos e católicos.Muitos delegados sugeriram se unir à Criméia, de língua russa, que tem seu próprio governo e parlamento. A Criméia, região de veraneio da Ucrânia no Mar Negro e sede da maior base navalrussa, lutou contra o domínio ucraniano nos anos 1990.

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