Ronaldo Schemidt/ AFP
Ronaldo Schemidt/ AFP

Crise na Venezuela é ameaça regional, alerta OEA

Primeiros impactos sentidos pelos países vizinhos seriam problemas econômicos, um possível aumento da crise de refugiados, e atraso no processamento dos pedidos de asilo; entre janeiro e abril, o número de solicitantes do benefício no Brasil dobrou em comparação a 2016

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 13h09

GENEBRA – Documentos da Organização dos Estados Americanos (OEA) mostram como a crise na Venezuela pode contaminar toda a região, criando instabilidade e dificuldades sociais fora do país. De acordo com o relatório - produzido pela secretaria da entidade com sede em Washington -, Brasil, Colômbia e países do Caribe poderiam ser os principais afetados pela turbulência em Caracas.

"O impacto da crise não se limita às fronteiras (da Venezuela) e se a situação continuar a se deteriorar, toda a região pode ser afetada", alertou a OEA, que pede “pragmatismo” dos governos do continente.  

Um primeiro impacto seria econômico. "Esse impacto da crise se fez sentir em muitos vizinhos, dado o apoio financeiro que havia garantido uma estabilidade em vários deles". Um exemplo é o programa Petrocaribe que, graças aos subsídios venezuelanos, forneceu abastecimento energético para países da América Central e Caribe, incluindo Cuba.

"Essa ajuda é muito valiosa. Mas à medida que foram aumentando os problemas financeiros do governo, houve a impossibilidade de pagar às companhias estrangeiras centenas de milhões de dólares por bens e serviços recebidos", disse. "Essas dívidas continuam pendentes."

Outra dimensão, alertada também pela ONU, se refere à possibilidade de uma "crise de refugiados em grande escala". "A devastação provocada pela crise econômica e humanitária é agravada pela escalada dos índices de delitos e a ferocidade da repressão", alertou.

Na avaliação da OEA, desde o ano 2002, quando Hugo Chávez ainda comandava a Venezuela, "dois milhões de venezuelanos abandonaram o país". Citando relatórios da ONG Human Rights Watch, a entidade destaca que Brasil e Colômbia já sentem o impacto desse fluxo. "Os hospitais perto das fronteiras estão lotados de pacientes venezuelanos que querem atenção médica de emergência", apontou.

Mas outra preocupação se refere ao "grande atraso no processamento dos pedidos de asilo". "Os sistemas de apoio do Brasil estão sobrecarregados", mostra o documento. Entre janeiro e abril, o número de solicitantes de asilo no País dobrou em comparação a 2016, chegando a 8,2 mil. Na Colômbia, apenas em janeiro foram 47 mil venezuelanos que cruzaram as fronteiras. "Segundo estimativas mais recentes, o número de venezuelanos que residem hoje ilegalmente na Colômbia poderia oscilar entre 400 mil e 900 mil."

Outro impacto importante começa a ser registrado nos países do Caribe. Até recentemente, a Venezuela era o destino de milhares de imigrantes dessas ilhas, em busca de trabalho. “À medida que a crise piora, questiona-se para onde vão agora todos esses imigrantes”, alertou.

Segurança

De uma forma mais abrangente, a OEA também alerta que a crise venezuelana pode significar uma ameaça à segurança regional, principalmente se houver dificuldade em controlar o destino das milhares de armas que o país importou nos últimos anos.

"Na região, existe um risco significativo em matéria de segurança em razão da grande quantidade de armamento militar adquirido ao longo de vários anos pelo governo venezuelano, principalmente da Rússia e China", disse. Em 2015, Caracas foi o país latino-americano que mais comprou armas, o 10.º do mundo nessa classificação.

"Entre 2011 e 2015, a Venezuela gastou mais em armamentos que qualquer outro país latino-americano", alertou a OEA. "No período entre 2006 e 2016, o gasto total chegou a US$ 137 bilhões. Em comparação, a Colômbia - com uma população 30% superior à da Venezuela e com um grave conflito armado - gastou US$ 92 bilhões."

"Dessas compras, o grande de número de armas leves, assim como sistemas portáteis de defesa aérea (Manpads), são os que despertam maior preocupação", indicou.

A estimativa é de que Caracas tenha 5 mil mísseis terra-ar de fabricação russa, o maior arsenal que se tenha conhecimento na América Latina. "A possibilidade de que os Manpads caiam em mãos erradas é uma preocupação global, já que de maneira deliberada ou negligente, poderiam terminar nas mãos de criminosos ou terroristas, que poderiam usá-los para derrubar aviões comerciais e civis", alertou o relatório da OEA.

A entidade não deixou de criticar a decisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de aumentar a milícia bolivariana de 100 mil para 500 mil integrantes. Todos receberiam um rifle. "A perda ou o desvio dessas armas poderiam facilmente exacerbar os já difíceis problemas que enfrentam os países vizinhos e centro-americanos para lutar contra a delinquência organizada transnacional ou os grupos armados rebeldes."

Narcotráfico

A OEA também colocou na lista de preocupações regionais o perigo de o Exército venezuelano passar a estar cada vez mais implicado "na dinâmica do comércio de drogas no país".

Lembrando como altos funcionários já foram identificados como parte do narcotráfico, a entidade cita os sobrinhos da primeira-dama do país, que também foram acusados nos EUA de estar implicados no comércio ilegal. "Esse caso colocou em evidência a participação direta das Forças Armadas no envio e transporte de drogas ao Haiti", alertou a OEA, que também destacou que a descoberta de carregamentos de drogas em voos entre Caracas e Paris apontaria para o envolvimento "de alto nível" de militares no comércio ilegal.

"A participação dos militares venezuelanos no narcotráfico internacional representa um claro perigo para a segurança pública e a saúde dos cidadãos dos países onde se transborda e se consome a droga", afirmou. "Além disso, corrompe cada vez mais a instituição, o que aumenta a possibilidade de perda, roubo ou desvio de armamento militar."

Procurada, a diplomacia venezuelana não respondeu aos pedidos para comentar o relatório. Nos últimos meses, o governo Maduro tem acusado a OEA de ser um "instrumento dos interesses imperialistas" e "marionete" dos EUA.

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