Crise no campo recria apartheid

Reforma agrária iniciada por Mandela estaciona e mantém África do Sul rural na mesma tensão da era do regime racista

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Frans Gaoganediwe acorda todos os dias às 6 horas para supervisionar os 50 mil frangos de sua fazenda. Andre Bartelman levanta-se no mesmo horário para alimentar cabeças de gado. A rotina massacrante do campo afeta os dois de uma forma parecida: fala mansa, mão calejada, pele estorricada de sol. A única diferença entre os dois é a cor da pele, o que na várzea sul-africana diz muita coisa.

Frans é negro. Andre, branco. Frans tem 87 hectares em Ventersdorp, norte do país. Louis é dono de 600 hectares na região de Bloemfontein, no centro. O maior pesadelo dos dois é reflexo do mais básico de todos os instintos: o medo de morrer.

"Procuro ter uma boa relação com os fazendeiros brancos, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã", diz Frans. "Tento conviver em harmonia com os negros, mas a situação piora a cada dia", afirma Louis.

Desde 1994, cerca de 3 mil pessoas, a maioria fazendeiros brancos e seus familiares, morreram em mais de 10 mil ataques registrados em regiões rurais da África do Sul. De acordo com o Instituto de Estudos Raciais Sul-Africanos, o mais importante centro de pesquisas no assunto do país, 90% dos crimes são tentativas de assalto corriqueiras, 8% acertos de contas trabalhistas e apenas 2% têm motivações raciais.

Mesmo assim, as violentas reações após o assassinato do líder extremista Eugene Terreblanche serviram para lembrar que existe uma parte da África do Sul que dificilmente aceitará viver algum dia em uma democracia racial.

De acordo com analistas, se os sul-africanos quiserem superar as marcas deixadas pelo apartheid terão de resolver a questão fundiária, porque é no campo que vivem os fazendeiros brancos. Conservadores, eles continuam misturando política e religião, exatamente como seus ancestrais no século 19.

Terra para todos. "A reforma agrária é um dos maiores fracassos do governo pós-apartheid", disse ao Estado Anthony Butler, chefe do Departamento de Estudos Políticos da Univesidade de Witwatersrand, de Johannesburgo. O programa de reforma agrária foi lançado na presidência de Nelson Mandela, em 1994, e pretendia redistribuir 30% das terras dos bôeres para os negros mais pobres. Até hoje, apenas 5% foi feito.

Diferentemente do vizinho Zimbábue, onde o governo toma a propriedade rural dos brancos, os sul-africanos decidiram pagar pelas terras seguindo o preço de mercado. Mas o dinheiro acabou. Seriam necessários mais US$ 9,4 bilhões para completar a meta - mais de duas vezes o investimento feito na Copa do Mundo de 2010.

Depois de admitir que o modelo de reforma agrária fracassou, o presidente sul-africano, Jacob Zuma começou a falar em "estratégias práticas" para adquirir mais terras de "maneira mais rápida e barata".

A linguagem usada por Zuma tem assustado os 40 mil fazendeiros brancos que vivem no país e aumentado a tensão no campo.

Se os brancos estão apreensivos, os negros estão cada vez mais frustrados com a lentidão do processo e com a falta de assistência do governo. Metade das terras distribuídas a fazendeiros negros não vinga por falta de financiamento ou de intimidade com o agribusiness.

Em um país de desigualdades, a questão agrária é uma bomba-relógio. Um aforismo sul-africano diz que os bôeres conquistaram o país com um fuzil em uma mão e a Bíblia na outra. O arcebispo Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1984, foi mais longe e sintetizou de maneira ainda mais precisa a questão. "Quando os brancos chegaram aqui, nós tínhamos as terras e eles, a Bíblia", disse Tutu certa vez. "Nós piscamos os olhos por alguns segundos e, quando abrimos, os brancos ficaram com as terras e nós, com a Bíblia."

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