Claudio Reyes / AFP
Claudio Reyes / AFP

Crise no Chile: Do aumento do preço do metrô à votação da nova Constituição

Veja passo a passo da convulsão social no país, iniciada em meados de outubro

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 10h00

SANTIAGO - Depois de um mês de distúrbios, protestos, saques e incêndios, o Congresso chileno alcançou um acordo histórico para convocar um plebiscito, destinado a redigir uma nova Constituição que substitua a atual, vigente desde a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Veja abaixo passo a passo da convulsão social no Chile, que começou em meados de outubro. 

Aumento do preço do metrô e confrontos 

No dia 18 de outubro, o caos explodiu em Santiago com confrontos, incêndios e ataques ao metrô, em repúdio ao aumento do preço da passagem, que passou de 800 pesos para 830 pesos (depois de outro aumento de 20 pesos em janeiro), que forçou o fechamento de todas as estações.

O prédio da empresa de energia elétrica Enel e uma filial do Banco Chile, ambos no centro da capital, foram incendiados, assim como várias estações de metrô, enquanto confrontos entre manifestantes e policiais explodiam em diferentes partes da cidade.

Para Entender

Por que o Chile ainda tem uma Constituição herdada da ditadura? Entenda

Documento foi aprovado em setembro de 1980 em um polêmico plebiscito durante o regime militar; veja como ele ainda segue vigente no país

À noite, o presidente Sebastián Piñera decretou estado de emergência em Santiago e confiou a um militar, o general Janvier Iturriaga, a responsabilidade de garantir a segurança pública.

Toque de recolher

No dia 19, milhares de pessoas protestaram contra injustiças sociais em Santiago e entraram em confronto com as forças da ordem. Outras manifestações ocorreram em grandes cidades, como Valparaíso e Viña del Mar. 

Pela primeira vez desde o fim da ditadura de Pinochet, milhares de militares foram enviados às ruas e foi decretado toque de recolher.

Para Entender

Guia para entender os confrontos no Chile

Presidente diz que país está ‘em guerra’ diante das manifestações violentas; entenda o que está acontecendo

No porto de Valparaíso, dezenas de manifestantes incendiaram o edifício do El Mercurio, o jornal mais antigo em circulação no Chile.

Chile “em guerra”

No dia 20, os tumultos continuaram, com novos confrontos no centro de Santiago e vandalismo em diferentes bairros. Ao menos 78 estações de metrô foram depredadas e algumas foram completamente destruídas.

O estado de emergência se estendeu a 9 das 16 regiões do país, e um toque de recolher foi anunciado para a noite.

"Estamos em guerra contra um inimigo poderoso e implacável, que não respeita nada, nem ninguém, e está disposto a usar a violência e o crime sem qualquer limite", disse Piñera.

No dia seguinte, as manifestações recomeçaram aos gritos de "Fora, militares". Quase todas as escolas e universidades da capital suspenderam as aulas e o transporte público seguia ainda bastante alterado. Longas filas se formaram em postos de gasolina e supermercados.

Piñera convocou uma reunião para o dia seguinte com os partidos políticos, para tentar alcançar um "pacto social".

Greve geral

No dia 22, apesar do pedido de "perdão" do presidente e do anúncio de um pacote de medidas sociais - aumento das pensões mais baixas e congelamento das tarifas de eletricidade -, a insatisfação social não diminuiu. Os principais sindicatos e movimentos sociais do país convocaram uma greve geral.

Para Entender

Presidente do Chile é visto comendo pizza durante protestos e foto viraliza

Sebastián Piñera foi flagrado no sábado em uma pizzaria; segundo portal chileno, ele foi celebrar o aniversário do neto com a família

Três dias depois, 1,2 milhão de pessoas se concentrou em Santiago para uma mobilização histórica, a de maior convocação nos últimos 30 anos. No dia 27, Piñera anunciou a suspensão do estado de emergência que vigorava há oito dias e retirou os militares das ruas.

O número de mortos chegou a 20, sendo que 5 deles foram vítimas de disparos das forças de ordem. Uma missão das Nações Unidas investigou denúncias de violações dos direitos humanos durante a onda de violência.

No dia 28, o presidente trocou 8 de seus 24 ministros, inclusive seu chefe de gabinete, Andrés Chadwick.

Cancelamento da Apec e da COP25

No dia 30 de outubro, em meio aos protestos, Piñera cancelou a organização do encontro de líderes do fórum econômico Ásia-Pacífico (Apec) e da cúpula mundial das Nações Unidas sobre o Clima (COP25), dois eventos que colocariam o Chile em evidência para o mundo.

Em 6 de novembro, em entrevista à BBC, Piñera disse que irá governar até o último dia e descartou renunciar. Nesse mesmo dia, os protestos chegaram aos bairros de Providencia e Vitacura, no leste de Santiago, coração financeiro do país.

No dia 7, Piñera elevou o tom e anunciou uma série de projetos para aumentar as medidas de controle da ordem pública. Dois dias depois, o presidente se abriu pela primeira vez à reforma da Constituição.

Retorno da violência

Em 12 de novembro, juntamente a uma convocação de greve geral, voltaram a estourar confrontos violentos, saques e incêndios. Uma igreja patrimonial do centro de Santiago foi atacada e registraram-se duas novas vítimas, elevando o total de mortos a 22. 

Em uma mensagem aguardada, Piñera propôs um acordo pela paz e se absteve de levar os militares de volta às ruas. No dia seguinte, o Banco Central chileno anunciou uma injeção de US$ 4 bilhões para impulsionar o peso, que chegou ao seu mínimo histórico, perto das 800 unidades por dólar.

Convocação ao plebiscito 

O Congresso alcançou um acordo apoiado por todos os grupos políticos, tanto de esquerda quanto de direita, com exceção do Partido Comunista, e anunciou a convocação a um plebiscito em abril de 2020 sobre uma nova Constituição que substitua a atual, vigente desde a ditadura de Pinochet.

Segundo o acordo, necessário para modificar a atual Carta Magna, será promovida a realização de uma consulta para responder a duas perguntas: se a população quer ou não uma nova Constituição e que tipo de órgão deve redigir esse documento, uma "Assembleia Mista Constitucional" ou uma "Assembleia Constitucional". / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.