Crise no Egito ameaça futuro do islã político

Tão logo a deposição do presidente eleito do Egito, Mohamed Morsi, foi anunciada pelo Estado-Maior das Forças Armadas, uma onda de conjecturas invadiu a imprensa internacional e as redes sociais sobre a sorte do chamado "islã político". Que sejam intelectuais comprometidos com a liberdade e a democracia ou ditadores assassinos como o sírio Bashar Assad, todos se lançaram a uma reflexão: o golpe de Estado no Cairo marcaria o declínio dos partidos islâmicos?

ANDREI NETTO, Agência Estado

06 de julho de 2013 | 16h53

Bashar Assad, fiel ao seu estilo autocrático, vaticinou a morte da Irmandade Muçulmana. "Qualquer um que se servir da religião no campo político para favorecer um grupo à custa de um outro cairá onde quer que seja no mundo", sentenciou após o golpe.

Já dentro e fora do Egito ninguém tem certeza de nada. Mesmo intelectuais que apoiaram desde o primeiro momento os protestos pela deposição de Morsi são reticentes em apontar o golpe como o fim da Irmandade Muçulmana no país. De outro lado, até mesmo os islamistas que participam do movimento sabem que seu futuro político está, sim, em questão. "Não tenho a menor dúvida de que o golpe de Estado foi orquestrado não só contra Morsi, mas para prejudicar o futuro da Irmandade Muçulmana, tanto que prenderam os líderes do movimento", estima o engenheiro Ibrahim Saliman, 49 anos, militante que está acampado em Nasr City, ponto de concentração da multidão de muçulmanos que protesta na capital.

Membro do secretariado da Irmandade Muçulmana, órgão que dirige o grupo islamista, Mohamed Soudan acredita na reemergência do movimento, mesmo que Mohamed Morsi não retorne à chefia do Estado. "Se novas eleições forem convocadas, a Irmandade vai certamente adotar um candidato", afirmou ao Estado. "Se Morsi for solto, ele provavelmente será o nosso representante em um novo pleito. Mas se o imputarem por crimes, vamos ter de escolher outro nome."

Para especialistas em Oriente Médio como o diretor da rede de TV Al-Arabiya Abdulrahman al-Rashed, a intervenção militar no Egito indica que a Irmandade Muçulmana "perdeu seu momento". "Eles perderam o governo do maior país árabe. O preço exigido deles para se manter era a coexistência, a participação e a aceitação de um sistema democrático amplo", afirmou em seu blog no site da emissora. "Morsi foi incapaz de seguir esse caminho depois de vencer as eleições."

Exterior

O que parece desde já certo é que a crise política no Egito terá repercussões em todo o Oriente Médio e pode reorientar a Primavera Árabe, ou até mesmo representar uma nova etapa da série de rebeliões iniciadas em dezembro de 2010. No meio intelectual árabe, paira uma expectativa sobre que caminhos os países vizinhos tomarão. Na Tunísia, outro país em que um partido muçulmano assumiu o poder, manifestações à imagem das realizadas na Praça Tahrir chegaram a ser convocadas, mas por ora não se tornaram movimentos de massa contra o presidente eleito, Moncef Marzouki.

Para o historiador Alaya Allani, professor da Universidade de Tunis, o golpe no Egito pode, sim, representar o "início do fim do islã político nos países da Primavera Árabe". "O movimento islamista demonstrou sua incapacidade para instaurar a segurança, assim como o desenvolvimento econômico e social", afirmou em entrevista ao jornal francês Le Figaro na qual classificou o golpe de Estado como "revolução corretiva". "O que aconteceu no Egito terá repercussões, em graus diferentes, na Tunísia."

Menos determinista é Antoine Basbous, diretor do Observatório do Mundo Árabe, de Paris, laboratório de referência no assunto na Europa. "O primeiro ano de Morsi foi um fracasso, o povo se revoltou e recebeu o apoio dos militares", entende Basbous, que não classifica a intervenção militar como golpe militar. "O que aconteceu no Egito é uma etapa em um processo."

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