Crise no Egito ameaça levar a 'colapso do Estado', alerta chefe do Exército

Instabilidade. Ministro da Defesa do Cairo critica disputa entre facções políticas e diz que 'mexer nas instituições estatais pode prejudicar a segurança nacional'; onda de violência entra no sexto dia, apesar de estado de emergência imposto por Morsi

CAIRO, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2013 | 02h10

A onda de instabilidade que há seis dias varre o Egito ameaça "levar ao colapso do Estado", alertou ontem o mais importante general das Forças Armadas do Cairo - instituição que, até o ano passado, governou o país por décadas. O aviso do general Abdul-Fattah al-Sisi, atual ministro da Defesa, foi feito enquanto continuam os distúrbios na região do Canal de Suez e no Cairo, apesar do estado de emergência imposto pelo presidente Mohamed Morsi.

"Esse conflito entre diferentes forças políticas e a discórdia entre elas sobre como governar podem levar ao colapso do Estado e ameaçar o futuro das gerações que estão por vir", disse Sisi, em um texto publicado na página do Exército no Facebook. O general, que estudou nos EUA e foi escolhido por Morsi para comandar a pasta da Defesa, completou: "A tentativa de mexer na estabilidade das instituições estatais é algo perigoso, que pode prejudicar a segurança nacional egípcia".

Em quase uma semana de violência entre manifestantes e forças de seguranças nas principais cidades egípcias, entre 50 e 56 pessoas morreram - o número varia de acordo com as fontes - e centenas ficaram feridas. Ontem, os confrontos no Cairo intensificaram-se e o lobby do Hotel Intercontinental, um dos mais luxuosos da capital, perto da Praça Tahrir, acabou destruído em um tumulto. Na beira do Nilo, forças policiais e grupos de manifestantes mascarados, conhecidos como Bloco Negro (mais informações nesta página), enfrentaram-se.

O foco da crise, entretanto, é Port Said, na região onde o Canal de Suez desemboca no Mar Mediterrâneo. Segundo fontes locais, pelo menos 45 pessoas morreram na cidade desde quinta-feira, quando a Justiça condenou à morte 21 torcedores envolvidos no massacre no jogo de futebol entre os times Al-Masry e Al-Ahly, há quase um ano.

Outras duas cidades por onde passa o canal, Ismailia e Suez, também vêm sendo palco de grandes distúrbios, e o temor da perda de controle sobre a região estratégica fez Morsi decretar estado de emergência. A medida confere aos militares e ao governo poderes adicionais de detenção e julgamento e restringe as liberdades civis. O decreto deverá durar pelo menos 30 dias. O presidente, da Irmandade Muçulmana, também ordenou o envio de tropas do Exército para conter os distúrbios.

Quase todas as vítimas da violência em Port Said foram mortas por disparos de arma de fogo. Testemunhas afirmam que era possível ouvir tiros nas manifestações de ontem. Um porta-voz do Ministério do Interior disse à TV egípcia que a polícia está sofrendo "ataques sem precedentes" e culpou "grupos que buscam a violência e cujos membros possuem diversas armas".

Generais. Em seu comunicado, Sisi garantiu que as Forças Armadas protegerão o Canal de Suez, que ele qualificou de "vital" para o Egito. Pouco após a eleição de junho, Morsi nomeou o general para o comando das Forças Armadas em substituição ao marechal Hussein Tantawi, que foi uma das principais figuras do regime de Hosni Mubarak e, após a queda do ditador, assumiu interinamente o governo.

Com 58 anos e ex-chefe da agência militar de inteligência, Sisi é tido como um homem de confiança dos EUA - ele foi aluno do US Army War College, a escola de oficiais do Exército americano. Washington fornece anualmente US$1,3 bilhão em ajuda militar para o Egito. Um dos principais aliados de Sisi, o general Mohamed el-Assar, passou a coordenar a aliança militar com os EUA.

Em meio aos distúrbios que levaram à queda de Mubarak, os militares não tomaram partido do ditador e rejeitaram participar da repressão aos manifestantes. Analistas afirmam que eles temem retornar aos holofotes da política egípcia. / REUTERS E NYT

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