Daniel Tapia/Reuters
Daniel Tapia/Reuters

'Crise no Equador já é sinal da disputa eleitoral de 2021 para presidência'

Para analista político, grupo do ex-presidente Rafael Correa usa insatisfação popular para tentar desestabilizar governo de Lenín Moreno

Entrevista com

Simón Pachano, cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso)

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 08h00

O fim dos subsídios aos combustíveis está por trás da nova crise política equatoriana. Ao Estado, o cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), do Equador, Simón Pachano, disse que, embora o governo do presidente Lenín Moreno seja frágil, as reformas econômicas são necessárias e o movimento liderado pelo ex-presidente Rafael Correa, o “correísmo”, aproveita a oportunidade para mobilizar a população e desestabilizar Moreno. 

É possível que o correísmo ganhe força no Equador com a crise?

Sim, isso favorece os partidários de Rafael Correa e, obviamente, é o movimento dele que está alavancando os protestos. Isto está muito claro. Eles anunciaram com antecedência que mobilizariam seus seguidores em caso de qualquer tipo de medida. 

Caminhoneiros e motoristas, em geral, são mais favoráveis a Correa ou isso está mais relacionado à questão econômica?

Eles se movem mais pelo preço dos combustíveis. No entanto, evidentemente, há neste momento um acordo com o correísmo para levar adiante esses protestos. Não é que sejam correístas, mas encontram um forte aliado em Correa. 

Qual era a situação de Lenín Moreno antes do acordo com o FMI e o que deve mudar?

Moreno é um presidente muito fraco, não tem apoio. Não passa de 20% de aprovação. Isto é um sinal de fraqueza, mas isso também significa que ele não tem muito a perder. Então, Moreno tem capacidade para resistir, precisamente porque é fraco. Mas é claro que isso o afeta, não tanto em relação ao apoio da população, mas em termos de desestabilizar seu governo. O objetivo dos correístas é a desestabilização. Já o interesse de motoristas e proprietários de cooperativas de transporte é simplesmente alterar o que deve ser imposto com as novas medidas. Eles são usados pelo correísmo.

Existe uma saída para contornar a impopularidade de Moreno?

Não acho que exista. É uma situação difícil que o governo tem de manter sem o apoio de nenhum partido político. Acho até que é um oportunismo de outros partidos políticos e organizações sociais, porque eles sabem perfeitamente que é necessário um ajuste econômico, mas eles se opõem para que isso seja feito. Além disso, haverá eleições em 2021 e a crise já é um sinal da disputa. 

E qual é o contexto econômico do aumento dos preços? 

A economia do Equador vai mal desde 2014, quando Correa ainda estava no governo. Quando ele saiu, em 2017, estava claro que era preciso tomar medidas econômicas impopulares. Moreno não pôde tomar essas medidas antes porque é um governo que não tem definição clara e não havia rompido definitivamente com o correísmo. O acordo com o FMI permite estabilizar a economia do Equador com condições muito melhores do que as anteriores, feitas principalmente com bancos chineses. Agora, com o FMI, teremos um prazo de 15 anos para pagar com juros de no máximo 3%. A única saída do governo equatoriano para melhorar a economia é manter esse acordo. 

Há semelhanças com o que aconteceu no governo do ex-presidente Lucio Gutiérrez?

Foram outros fatores com Lucio Gutiérrez, mais políticos do que econômicos. O preço dos combustíveis no Equador esteve subsidiado por mais de 15 anos e não se revisavam os subsídios. São preços irreais que puderam ser mantidos durante os governos de Correa em razão da economia petroleira da época, porque o Equador se beneficiou com os preços altos do petróleo no mercado internacional. No entanto, agora isso não acontece mais.

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