Crise no Iraque põe em xeque relação entre Europa e EUA

Na guerra que opõe a Velha Europa, ou seja, Alemanha e França, à jovem nação americana, ou seja, George W. Bush, Paul Wolfowitz e Donald Rumsfeld, um segundo front deve se abrir.O primeiro front tinha como alvo a União Européia, essa mirabolante descoberta que devia fazer da Europa uma potência econômica, estratégica, financeira e diplomática coerente e em pé de igualdade com os EUA. Ora, desde as primeiras escaramuças, um míssil devastador foi expedido contra a UE.Não foi Washington que lançou este foguete contra a UE de Bruxelas. Foram os suplentes de Washington, seus mercenários, ou seja, os ingleses, auxiliados pelos poloneses, espanhóis, italianos e checos. Ao chamado de Tony Blair, oito países da UE retiraram repentinamente seu apoio aos parceiros alemão e francês.Três dias mais tarde, durante este fim de semana, o segundo front foi aberto não mais da parte americana, mas desta vez pela Velha Europa. A bomba visa a Otan, organização militar formada na época da Guerra Fria para combater os soviéticos, e que é amplamente influenciada pelos EUA.O que aconteceu? Os EUA e a Turquia pediram à ONU para examinar um conjunto de seis medidas destinadas a proteger a Turquia - integrante da Otan, mais ainda não da UE -, contra eventuais ataques iraquianos.Ora, a este pedido a Velha Europa respondeu não. França, Alemanha e Bélgica recusaram. Por quê? Segundo eles, essa iniciativa dissimula a vontade americana de simular uma concordância da Otan com a perspectiva da guerra contra o Iraque. Se de fato a Otan decidir proteger a Turquia, isso quer dizer que ela aprova a lógica da guerra dos americanos, enquanto que, por hora, Bélgica, França e Alemanha - que também pertencem à Otan - recusam a fatalidade da guerra que Washington apregoa.Donald Rumsfeld, que se encontrava em Munique para acompanhar a 39ª Conferência Internacional sobre Política de Segurança - uma espécie de Davos da defesa -, não se enganou. Durante dois dias se esforçou para sorrir, mas depois, subitamente, se enfureceu. Ele perdeu a cabeça. Repudiou esses governos que "estão mais preocupados com os EUA do que com os Estados terroristas". E disse que a recusa dos três velhos europeus vai "ofender e magoar a própria Otan".Assim, a guerra contra o Iraque, antes mesmo de começar, já fez alguns estragos: sua primeira vítima é essa UE, criada para unificar todas as nações do velho continente e que foi dividida em duas. Pobre UE! Ela já está manca. E agora perde as muletas! A segunda vítima é a Otan, esse mecanismo impressionante que sustentou todo o peso estratégico do mundo ocidental durante a Guerra Fria, até o ponto de ganhar a Guerra Fria, mas que claudicou um pouco depois que a União Soviética se fragmentou.É evidente que a UE vai sobreviver, assim como a Otan não vai morrer.Mas tanto uma quanto a outra, essas duas instituições fundamentais do sistema mundial sofreram baques violentos e suas feridas estão formando pus.Mas que pus é esse? Os comportamentos agressivos, odiosos e infantis que adotaram os dirigentes dos dois lados, sejam Wolfowitz e os neoconservadores messiânicos de Washington ou mesmo Schroeder, Chirac e Dominique de Villepin.Não negligenciemos as fúrias jornalísticas. Os jornais americanos e ingleses, incluindo os mais tradicionais, não precisaram se esforçar muito para encontrar insultos os mais ignominiosos contra a França e a Alemanha. Os jornais franceses fizeram o mesmo. Tanto entre os americanos como entre os franceses, havia uma espécie de excitação e até de alegria nessa troca de gentilezas.

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