Crise no Oriente Médio cria impasse na Habitat

O conflito no Oriente Médio roubou a cena nesta sexta-feira, no encerramento da Habitat+5, encontro da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre cidades, adiando a divulgação da declaração da conferência. Diplomatas palestinos pressionaram pela menção no texto à "ocupação estrangeira" de cidades. Israel, apoiado pelos Estados Unidos, se opôs. Aliados dos palestinos no Grupo dos 77, comitê de países em desenvolvimento que representa mais de dois terços dos 189 membros da ONU, apresentaram duas emendas à declaração final. A primeira era sobre a "ocupação estrangeira e a transferência ilegal de população do poder de ocupação para os territórios ocupados", disse o observador palestino na ONU Nasser Al-Kidwa. "O outro tem a ver com o drama dos refugiados - há apoio generalizado a esse item porque ele é muito relevante na questão dos assentamentos humanos." Durante a conferência, Al-Kidwa já dissera que "o povo palestino está sendo esfolado pela opressão da ocupação estrangeira de Israel". Ele afirmou que a maioria dos 3,8 milhões de palestinos estava impedida de voltar para casa e forçada a viver em campos de refugiados "lotados e dilapidados". Um integrante da delegação de Israel, que pediu anonimato, tachou a iniciativa palestina de tentativa de politizar a conferência. "É um fórum profissional, e a maneira pela qual eles estão tentando incluir esses itens políticos na declaração é inaceitável", disse. "Especialmente num momento em que o terrorismo ameaça Israel e estamos tentando acalmar a situação." A resposta formal a Al-Kidwa coube ao ministro da Habitação de Israel, Natan Sharansky. "Os cidadãos israelenses estão sendo chantageados por terroristas que lutam para tornar a vida diária insuportável e usam a falsa alegação de que as nossas colônias são um obstáculo central para a paz", disse."Estamos exercitando a moderação ao não usar nossa capacidade militar para dar outra chance à paz", afirmou. Apesar desse impasse, os redatores da declaração foram hábeis em contornar a oposição dos EUA a outro trecho do texto, que mencionava o "direito à moradia adequada". O termo "compromisso" com moradia adequada mostrou-se mais palatável para os norte-americanos. A administração George W. Bush temia que a expressão "direito à moradia" pudesse desencadear uma corrida à Justiça do país por parte de ativistas ligados aos sem-teto. Em outros trechos da declaração, os diplomatas concordaram em reclamar um maior poder político para os governos locais. Um dos marcos da conferência foi o fato de, pela primeira vez na história, um prefeito ter discursado na ONU. Essa distinção coube ao representante de Barcelona, Joan Clos. Os delegados assinalaram que o mundo vive "um momento especial para o desenvolvimento dos assentamentos", pelo fato de as cidades abrigarem metade da população do planeta. "Notamos com preocupação que uma em cada quatro pessoas no mundo urbano vive sob o umbral da pobreza." A ONU calcula que de 1 bilhão a 1,3 bilhão de pessoas vivem em habitações precárias, sem acesso a serviços básicos. Em favelas de Bombaim, por exemplo, há um banheiro para cada grupo de 800 pessoas. "Estou satisfeita com o encontro", disse a diretora-executiva do Centro Habitat, Anna Tibaijuka.A avaliação da Coalizão Internacional do Habitat, grupo de ONGs ligadas à questão da moradia, foi bem diferente. Seus integrantes manifestaram-se diante da ONU, onde construíram uma casa com documentos das Nações Unidas sobre o tema. O mote do protesto era: "Parem de falar, façam!"

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