Crise no Oriente Médio não tem a ver só com os EUA

Disputas, revoluções e velhos problemas da região exigem uma forma inovadora de enxergar a relação com a maior potência mundial

, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, , THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2012 | 03h04

Análise

Mitt Romney fez um discurso sobre política externa na semana passada que pode ser resumido neste argumento: tudo o que está errado no Oriente Médio pode estar relacionado a uma falta de liderança do presidente Obama. Se este discurso é indicação das ideias de Romney sobre política externa, então devemos lamentar. Não foi refinado na descrição das complexas aspirações das populações do Oriente Médio.

Hoje, a pior mensagem que podemos enviar ao Oriente Médio é de que seu futuro está ligado totalmente a tudo o que fizermos. Não é isso. O mundo árabe-muçulmano nunca foi mais complexo e mais carente de novas abordagens totalmente diferentes - do Ocidente e deles. Desde o início do despertar árabe os EUAvêm buscando meios de se conectar com os jovens que encabeçaram as revoluções: 60% da população do mundo árabe é formada por jovens com menos de 25 anos.

Se coubesse a mim decidir, encarregaria Arne Duncan, secretário da Educação, de estabelecer a política americana para o mundo árabe-muçulmano. Porque precisamos acabar com essa história que remonta à Guerra Fria de vender armas ali para manter os "homens fortes" do lado dos EUA e no poder, e começarmos a patrocinar um tipo de "Corrida para o Topo" - competição por recursos financeiros em que os que apresentarem a proposta inovadora para melhorar o desempenho acadêmico recebem mais verba.

Observe as tendências na região. No Iraque e Afeganistão, infelizmente, a autocracia foi substituída por uma "cleptocracia eletiva"; que é aquilo que você obtém quando substitui uma autocracia por um governo eleito antes de existirem instituições responsáveis e transparência, e ao mesmo tempo enormes quantidades de dinheiro.

Por outro lado, na Tunísia, Iêmen, Egito, Iraque e Líbia, o que observamos é o colapso do "Estados mukhabarat" (termo em árabe para designar serviços de segurança), mas ainda não vemos a ascensão de democracias de fato. Este vazio propicia uma abertura para os jihadistas. Como afirmou Bruce Rieldel, antigo analista da CIA, em ensaio no Daily Beast, "os antigos Estados policiais, chamados Estados mukhabarat em árabe, eram ditaduras autoritárias que governavam de modo arbitrário e ineficiente, mas boas para combater o terrorismo.

Estes novos governos estão tentando fazer algo no mundo árabe que jamais foi feito antes - criar estruturas onde o Estado de direito predomina e a polícia secreta presta conta dos seus atos para as autoridades eleitas. Esta é uma tarefa monumental".

A guerra entre muçulmanos sunitas, liderados pelos sauditas, e muçulmanos xiitas, conduzidos pelo Irã, se inflama cada vez mais e está no centro do conflito sírio. Além disso, há uma disputa dentro do Islã sunita entre salafistas, puritanos, e ativistas da Irmandade Muçulmana mais tradicionais. E há uma rixa entre todos os partidos islâmicos - que afirmam que o "Islã é a resposta" -, e forças tradicionais mais seculares.

Como os EUA podem influenciar numa região com tantos conflitos e planos contrapostos? Para começar é preciso deixar claro que os novos governos árabes são livres para escolher o caminho que desejarem, mas somente apoiaremos aqueles países que: 1- educarem a população de modo a se modernizar; 2- capacitarem suas mulheres; 3- adotarem o pluralismo religiosos; 4- tiverem múltiplos partidos, eleições regulares e uma imprensa livre; 5- mantiverem os compromissos baseados em tratados; 6- controlarem seus extremistas com forças de segurança agindo com base na lei. Achamos que esta é "a resposta". (Romney, é preciso dizer, pretende seguir nesta direção e Obama já está fazendo isso).

Será uma longa luta em muitas frentes. Exigirá uma grande mudança de pensamento do próprio mundo árabe-muçulmano, afirma Husain Haqqani, ex-embaixador do Paquistão nos EUA, deixando de pensar em "nós versus eles para nós versus nossos próprios problemas". E abandonar o "somos fracos e pobres porque fomos colonizados" para pensar que "fomos colonizados porque éramos fracos e pobres".

Podemos ouvir vozes hoje fazendo essas afirmações, diz Haqqani, e o melhor a fazer é as incentivarmos sendo claros quanto ao que representamos. O Oriente Médio somente vai colocar um sorriso no seu rosto quando a mudança partir deles, não dos EUA. Será, então, autossustentável e a ajuda americana realmente vai colaborar para que isso somente se amplifique.

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