Crise pode criar "franco-atirador" na Argentina, diz cientista político

O encaminhamento que será dado à crise econômica nos próximos 90 dias na Argentina, quando devem ser realizadas eleições diretas para a escolha do sucessor de Fernando de la Rúa, condicionará o resultado do pleito. A desvalorização do peso, por exemplo, deve ser muito mal recebida pelos argentinos, influenciando a campanha eleitoral. A avaliação é do cientista político Fernando Abrucio, professor da PUC e FGV-SP, ponderando que a falta de uma solução para a crise econômica pode abrir espaço para a vitória de "um franco atirador".Foi assim na Venezuela e no Peru, com a eleição de Hugo Chavez e de Alberto Fujimori. "Há espaço para o renascimento do nacionalismo", avaliou Abrucio, antevendo uma campanha eleitoral de refrões nacionalistas, pedindo uma intervenção forte do Estado na economia, que poderia levar à estatização de empresas e do sistema financeiro ou à centralização do câmbio. "Com a falência do antigo modelo, o caminho está aberto", afirmou.Na opinião do cientista político, um nome do Partido Justicialista (PJ), como Eduardo Duhalde, também é forte candidato a adotar um discurso populista que viabilize sua vitória para a presidência. "A gestão dos 90 dias será o discurso para a eleição", afirmou, antevendo conflitos entre a ação do governo interino e o discurso do candidato do PJ.O ex-presidente Carlos Menem, que defende a dolarização da economia, teria chances mínimas de disputar o lugar de De la Rúa, além de problemas jurídicos que inviabilizam sua candidatura. "Os peronistas são uma metamorfose ambulante", opinou Abrucio, prevendo guinadas radicais de discurso do PJ nas próximas semanas que garantem sua permanência no poder.Ele lembrou que Menem, quando eleito, abandonou as promessas nacionalistas de campanha para seguir uma plataforma neoliberal populista. Até mesmo um candidato de esquerda, segundo ele, tem boas chances de disputar o lugar de De La Rúa, à medida que poderá sustentar que não tem nada a ver com a política econômica que levou a Argentina aos caos.A desilusão da sociedade argentina, que se mostra cética com a solução da crise econômica a partir de uma mudança política, pode causar um retrocesso autoritário. Esta hipótese, neste momento, ainda é remota, mas não pode ser descartada, segundo Abrucio.Ele ponderou que, a partir de uma crescente "deslegitimização" do cenário político, a possibilidade do retrocesso é grande. Além da reação anárquica da sociedade contra o ex-ministro Domingo Cavallo e o ex-presidente Fernando de La Rúa, forçando a renúncia de ambos, o resultado da última eleição parlamentar de outubro é um indicador do enfraquecimento da classe política argentina. A abstenção chegou a 30%, embora o voto seja obrigatório.Dentre os votos válidos, os brancos e nulos, chamados pelos argentinos de "votos raiva", somaram 16,5%. Em algumas províncias, a abstenção chegou a 40%. Na época, De la Rúa declarou: "As pessoas querem resultados, e a reclamação é de que a recessão não acaba. Essa foi uma mensagem da população. Aquilo que estiver errado, será mudado."A mudança que veio não agradou e o resultado foi a renúncia do presidente. Abrucio lembrou que, ao falar de um retrocesso, não está pensando necessariamente em um golpe militar . De acordo com ele, um presidente da República recém-eleito, mas com baixa legitimidade eleitoral, poderia dar um golpe, aumentando seus poderes, reduzindo os do Congresso e afetando o Estado de Direito. Foi assim com Chavez e com Fujimori.Na opinião de Abrucio, se a comunidade financeira internacional sair em socorro da Argentina, a solução da crise econômica pode ser facilitada, reduzindo as chances de um discurso nacionalista. "Se a comunidade internacional não intervier e ajudar, o isolamento pode gerar o retrocesso autoritário", disse.Leia o especial

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