Crise pode ser oportunidade de recomeço

Artigo[br][br]Após posse de Santos, Colômbia e Venezuela poderão restabelecer laços sobre novas bases

Roberto Abdenur, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Com perdão da sutileza: a situação é séria, mas não chega a ser grave. Em outras palavras, uma nova colisão política entre dois vizinhos nossos requer extremo cuidado da parte do Brasil e de nossos parceiros, sobretudo quando chegam à ruptura de relações. Mas parece fora de questão a eclosão de um conflito militar. Embora tanto Álvaro Uribe quanto Hugo Chávez tenham razões para mais uma vez trocarem desaforos, fatores domésticos tendem a atuar no sentido da moderação. Uribe faz questão de sair da presidência com um estrondo, colocando sobre a mesa novas acusações contra Chávez. Mas Juan Manuel Santos assumirá com uma agenda pós-Uribe: em nada se arrefecerá o combate às Farc, mas a Colômbia precisa com urgência abordar outros de seus males, no plano social e econômico.

Chávez, de seu lado, não pode ir longe demais em suas reações. Enfrenta a caótica situação econômica e forte perda de popularidade. Curiosamente, suas estripulias provocam certa fadiga até mesmo entre os mais solícitos amigos - os quais estão agora a cuidar de seus próprios interesses.

Cuba tenta obter ganhos junto à Europa e aos EUA na barganha em torno de presos políticos. Rafael Correa, do Equador, reaproxima-se da Colômbia de Santos, deixando para trás as mágoas do bombardeio à base das Farc em seu território. A Argentina, com Néstor Kirchner à frente da Unasul e um novo chanceler comprometido com os direitos humanos, não pode atuar simplesmente como "aliada" da Venezuela. José Mujica, no Uruguai, embora dizendo-se "amigo" de Chávez, apressa-se a entrar em campo como apaziguador - como, de nossa parte, faz outro decisivo ator, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só o boliviano Evo Morales, fiel escudeiro, solta diatribes contra a Colômbia e "o império".

Esta crise pode, sim, ser uma bem-vinda oportunidade: a de um recomeço do relacionamento entre Colômbia e Venezuela. Chávez não poderá mais continuar a dar apoio - senão por ação, certamente por omissão - às Farc. Se antes nutria a ilusão de poder vê-las no poder, e com isso recompor a velha Nova Granada, certamente a esta altura percebe ser absolutamente fora de questão uma Colômbia "bolivariana". O que se deu nesse país, ao impacto da violência da guerrilha e do narcotráfico, foi o extraordinário amadurecimento da sociedade e fortalecimento dos valores e instituições democráticas.

Chávez foi de certo modo hábil. Não deixou de proferir palavras tonitruantes contra Uribe, mas no mesmo fôlego tratou de indicar a disposição a um entendimento com Santos. E enquanto a Uribe faltou tato e diplomacia no plano regional e internacional em geral, a Santos sobram visão e vivência no plano externo. A Colômbia de Uribe esteve demasiadamente acomodada na aliança com os EUA. A de Santos, sem prejuízo do bom relacionamento com Washington, tenderá a melhor inserir-se no contexto sul - e latino-americano.

Nos próximos dias, a questão deverá ser devidamente "esfriada" no âmbito da OEA. Dela não sairão acusações ou censuras contra a Venezuela. Tampouco é de supor que dela possa emanar a formação de uma comissão investigadora sobre a presença das Farc em terras venezuelanas. A sempre fértil ambiguidade diplomática será capaz de dar encaminhamento tranquilo ao assunto. Para isso, é de esperar que os EUA se mantenham discretos. Não deve Washington abordar a questão em termos de suas próprias dificuldades com Caracas: deve perceber que o que está em jogo é a possibilidade de superação da etapa de preocupante tensão entre duas grandes nações sul-americanas.

Que entre agora a Unasul em campo. Que atuem serena, equilibrada e construtivamente atores decisivos como Lula, Néstor (e Cristina) Kirchner, Mujica, o uruguaio Fernando Lugo, o mexicano Vicente Calderón e até o próprio Correa, tão ligado a Chávez pessoalmente. Que se deixem de lado as preferências e preconceitos ideológicos, e as ilusões de uma América do Sul "de esquerda". O que interessa não é apenas apagar mais um incêndio entre Bogotá e Caracas. Está a nosso alcance contribuir para assentar, em novas bases de diálogo, respeito mútuo e não-ingerência, o relacionamento entre duas nações irmãs.

À diplomacia brasileira o episódio oferece a oportunidade de aprender valiosas lições e dar-se conta de que foi muito longe a confraternização com Chávez. O atropelo dos interesses do Estado em favor de empatias ideológicas de sentido autoritário e socializante não condiz com nossos interesses.

E perceber, na mesma linha, o quão despropositado e contraproducente resulta, para nossos interesses econômicos de longo prazo, o empenho em forçar a introdução no Mercosul de governo como o de Chávez, declaradamente antinômico em relação às premissas daquele projeto como espaço de economia de mercado, livre comércio e regionalismo aberto.

Dito isto, uma palavra de otimismo: mal ou bem, com se viu nos últimos dias, com Maradona ao lado de Chávez, la manita de Dios estará conosco, abençoados sul-americanos, e tudo acabará bem.

É EX-EMBAIXADOR DO BRASIL EM WASHINGTON

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