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Crise pode unir a UE 

Saída dos EUA de acordo com Irã pode ter criado chance de surgir uma força coerente

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 05h00

Ele não conseguiu se conter: é muito excitante dizer “não” quando todo mundo, incluindo todos os chefes de Estado, com raras exceções como Israel e Arábia Saudita, suplicam para ele dizer “sim”. Entre esses chefes de Estado está esse curioso francesinho que o corteja há seis meses. Sim, Trump tinha razão ao anunciar desde a sua posse que a “América está de volta”, com uma diferença: outrora Washington tinha necessidade de ter à mão um “grande porrete” para fazer seus aliados se dobrarem, ao passo que hoje basta bancar o palhaço.

Desta vez, os aliados, os clientes, os companheiros mais próximos de Trump aparentam reagir. Mas é difícil responder a uma ameaça com outra ameaça quando se está diante da nação mais rica, mais ativa, mais armada.

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Mas a Europa rapidamente reagiu pela voz dos três países envolvidos: França, Alemanha e Grã-Bretanha. Como foi a resposta? Não foi invocado o direito, observando que os EUA ao rasgarem o tratado assinado em 2015 por Barack Obama violaram o princípio fundamental do direito internacional “Pacta sunt servanda”, que significa que “tratados devem ser cumpridos”.

Os três países em questão, parte do grupo dos 5+1 que firmou o tratado em 2015, decidiram responder diretamente à ameaça americana. Ignorarão a cólera de Trump e continuarão a observar as regras estabelecidas em 2015: eles não restabelecerão as sanções que levaram o Irã quase a uma asfixia mortífera. E continuarão a negociar e a investir no Irã, como se Trump não existisse.

Mas o problema é que Trump existe e ele aconselhou seus amigos do mundo inteiro a respeitar sua decisão, com o risco de represálias violentas da parte dos EUA. A título de exemplo, o embaixador dos EUA em Berlim, Richard Grenell, declarou no Twitter que “as empresas alemãs que negociarem com o Irã devem cessar suas operações imediatamente”. O aviso foi endereçado, claro, também à França e à Grã-Bretanha.

Na verdade, já foi timidamente que as empresas europeias entraram no mercado iraniano, tão incertas e frágeis lhes pareciam as promessas de sobrevivência do país, sobretudo com a “espada de Dâmocles” que há um ano e meio Trump vem brandindo sobre sua cabeça. Que banco francês, que companhia petrolífera britânica, que construtora alemã, ousará se afastar do mercado mais voraz do mundo, o mercado americano?

Os otimistas afirmam que a ameaça feita por Trump enfim poderá levar a Europa a se unir, a fazer uma verdadeira “frente comum” face aos EUA. Atualmente a Europa, por meio da União Europeia, oferece um espetáculo de desunião grandioso. A Europa Oriental, com Hungria e Polônia que detestam a UE. A Europa Meridional, com uma Grécia dizimada, uma Itália que de manhã à noite contabiliza o que resta para sobreviver? O que há apenas é o “núcleo duro” que engloba Alemanha e França. Infelizmente Angela Merkel não ousa mexer um dedo. Resta a França e seu estranho dirigente, Macron. E a Grã-Bretanha? Não faz mais parte da UE.

Então é com essa armada incompleta que a Europa vai lutar contra a primeira economia do mundo? Justamente, respondem os otimistas. Macron tem no bolso um plano para a Europa se restabelecer. Eis porque a crise que Trump criou pode ser uma chance para a Europa substituir uma instituição malograda – a União Europeia – por uma força coerente, única, decidida a se salvar unida, em vez de se encolher com cada um no seu canto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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