Crise política tira o foco da escassez e planos de reforma

Cenário: William Neuman / NYT

O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2013 | 02h04

Os apoiadores do presidente Hugo Chávez não descartaram a possibilidade de tomar seu juramento no hospital em que está internado em Havana. Seus detratores estão pedindo a investigadores do governo que verifiquem eles mesmos o pulso de Chávez. Os juízes que aliados de Chávez nomearam para a Suprema Corte decidiram que ele pode continuar a governar em ausência.

Num país que Chávez comandou por tanto tempo, sua crise de saúde e a decisão de prosseguir com uma quase posse presidencial à qual ele foi incapaz de comparecer está produzindo uma série de desdobramentos bizarros e uma angústia nacional sobre quem está no comando, obscurecendo outros assuntos urgentes como as pressões por uma dolorosa desvalorização da moeda, a produção de petróleo estagnada e a escassez crônica de alimentos e outros produtos de primeira necessidade nas prateleiras das lojas.

Há muito que Chávez, de 58 anos, repete, "eu sou o povo", um mantra que seus seguidores estão invocando enquanto planejam vestir a faixa que o presidente teria vestido se pudesse comparecer à posse, tornando-se eles mesmos simbolicamente presidentes. "Todos nós aqui somos Chávez, o povo na rua é Chávez, a senhora que cozinha é Chávez, o camarada que trabalha de vigia é Chávez, o soldado é Chávez, a mulher é Chávez, o agricultor é Chávez, o operário é Chávez: somos todos Chávez", disse o presidente da Assembleia, Diosdado Cabello.

Sem nenhuma surpresa, a Suprema Corte, repleta de juízes leais a Chávez, decidiu às vésperas da cerimônia de juramento que a posse de Chávez poderia ser adiada e sua equipe de consultores poderia se deslocar tranquilamente, em sua ausência, de um mandato para o seguinte.

O tribunal não quis estabelecer um limite de tempo para o juramento - levantando a possibilidade de que a incerteza que se aprofunda no país possa persistir por semanas ou meses. E nada fez para esclarecer o obstinado mistério da condição do presidente.

Luisa Estella Morales, presidente do Tribunal Supremo, disse numa entrevista coletiva na quarta-feira que não havia nenhuma necessidade neste momento de uma delegação ir a Cuba para reportar sobre a saúde de Chávez. Questionada se o juramento poderia ocorrer em Havana, ela disse que o tempo e o lugar da cerimônia não haviam sido estipulados.

O governo tem sido opaco há meses, reconhecendo que Chávez sofreu uma recidiva do câncer na região pélvica, mas não especificando o tipo de câncer nem detalhando seus prognósticos.

A falta de informação deixou a Venezuela atada. Chávez impôs-se por tanto tempo - com discursos que duravam horas, frequentes postagens no Twitter e sua personalidade exuberante que cantava, arengava, recitava poemas e desancava inimigos - que seu repentino silêncio criou um vácuo considerável.

A carta de Nicolás Maduro na terça-feira anunciando que os médicos de Chávez haviam recomendado que ele não comparecesse à posse e continuasse se recuperando fez alguns críticos do presidente especularem por que o loquaz Chávez não estava ele mesmo falando.

Na luta constitucional que se seguiu sobre se Chávez poderia legalmente iniciar um novo mandato sem comparecer ao programado juramento, os dois lados na Venezuela têm estudado o terreno movediço constitucional em busca de vantagens políticas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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