Crise por sumiço prejudica política e economia do país

Ligação entre ex-prefeito de Iguala, polícia e cartel confirma suspeita de muitos mexicanos sobre promiscuidade entre autoridades e crime

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2014 | 02h03

Os protestos pelo desaparecimento dos estudantes em Guerrero afetam a economia e os principais partidos do México. O Estado é governado há 13 anos pelo Partido da Revolução Democrática (PRD), o principal da oposição. A crise, porém, prejudica também o presidente Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que manifestantes acusam de não ter feito nada para enfrentar a criminalidade.

A aparente ligação entre o prefeito destituído de Iguala, José Luis Abarca, a polícia da cidade e o cartel Guerreros Unidos confirma a suspeita de muitos mexicanos, que consideram que o narcotráfico não é combatido eficazmente no México porque está infiltrado na política. Movimentos anarquistas e de esquerda dão voz a um sentimento de muitos cidadãos comuns, de que os partidos políticos tradicionais não resolverão os seus principais problemas.

A economia mexicana vivia um momento de otimismo. O índice de desemprego, de 5,2%, está entre os mais baixos entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos. Os bons resultados foram obtidos com políticas de longo prazo, como a chamada "reforma energética", que tornou os contratos de exploração de petróleo mais atraentes, e abertura comercial.

Na cidade turística de Acapulco, que fica no Estado de Guerrero, o setor hoteleiro anunciou ontem o cancelamento das reservas de 14 mil quartos, resultando em um prejuízo de 14 milhões de pesos (US$ 1,08 milhão), no feriado prolongado que começa no dia 20 - aniversário da Revolução Mexicana de 1910. O acesso ao aeroporto de Acapulco, balneário frequentado principalmente por turistas mexicanos, foi bloqueado por três dias consecutivos esta semana.

A queda do movimento em Acapulco até agora foi de 40%, mas o setor estima que, se as manifestações continuarem, possa chegar a 60% ou 70%. No feriado de Finados, a ocupação foi de 35%, ante 56% no mesmo período do ano passado, quando o destino se recuperava dos furacões Ingrid e Manuel, ocorridos um mês e meio antes.

O desaparecimento dos estudantes de Guerrero é considerado a pior violação dos direitos humanos no México desde o Massacre de Tlatelolco, a repressão a manifestações de estudantes e de outras categorias, em1968, em um país repleto de histórias recentes de atrocidades cometidas pelos narcotraficantes e por forças de segurança.

A reação dos parentes e colegas dos estudantes de Iguala está servindo de incentivo para outras vítimas, que permaneciam caladas por medo e por não acreditar nas instituições. Cerca de 60 familiares de desaparecidos em outros casos de atrocidades cometidas pelos cartéis e pelas forças de segurança procuraram a ONG Ciência Forense Cidadã, para pedir ajuda na identificação de seus parentes. Segundo o jornal Nacional, a ONG receberá ajuda do Conselho Britânico de Ciência e Tecnologia e da Universidade de Durham, da Grã-Bretanha, para tentar identificar corpos encontrados em valas comuns.

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