Crise quirguiz causa fuga de 150 mil

Fugindo de etnia rival, usbeques no Quirguistão tentam ir para o Usbequistão, que fecha sua fronteira; violência já deixou 130 mortos

Reuters, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2010 | 00h00

Perseguição. Refugiados usbeques, fugindo da onda de violência, passam por blindado quirguiz em Osh, sul do Quirguistão        

 

OSH, QUIRGUISTÃO

Tentando escapar da violência étnica que se alastrou no Quirguistão na última semana, cerca de 150 mil refugiados de etnia usbeque tentavam ontem deixar o território quirguiz pela fronteira com o Usbequistão. Pouco precisas, contagens parciais confirmavam ontem a morte de mais de 130 usbeques por multidões em fúria no sul do Quirguistão. Mas o número total de civis assassinados deve ser bem superior.

O Usbequistão anunciou ontem à noite o fechamento de sua fronteira com o Quirguistão, por não ter mais capacidade de receber refugiados e pediu ajuda internacional para as dezenas de milhares de pessoas que recebeu desde o início da crise. O fechamento da fronteira deve agravar a situação dos usbeques que tentam cruzar a fronteira.

O governo interino do Quirguistão ? formado após sangrentos distúrbios que levaram à queda do presidente Kurmanbek Bakiyev, em abril ? não consegue impor a ordem no sul do país. EUA e Rússia, que mantêm bases militares na porção norte do Quirguistão, iniciaram ontem uma rota aérea para enviar mantimentos. Mas as potências hesitam em enviar forças de paz para conter a violência étnica. O Conselho de Segurança da ONU condenou a violência e pediu uma solução pacífica para a crise.

Da Bielo-Rússia, onde recebeu asilo há dois meses, Bakiyev pediu a intervenção imediata de um aliança de países da Ásia Central liderados por Moscou. A obscura Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) deve "normalizar a situação", pediu o deposto, "pois o governo interino é incapaz de fazer isso".

Organizações humanitárias que atuam no Quirguistão chamam atenção para a crescente crise envolvendo uma fuga em massa de refugiados. Elas afirmam que, caso a onda de violência continue, a instabilidade poderá se alastrar para outros países da Ásia Central.

Um alto funcionário do governo americano disse em condição de anonimato ao jornal The New York Times que o presidente Barack Obama mantém "estreita comunicação" com autoridades russas para coordenar a reação à crise. Segundo ele, a iniciativa passaria pela ONU. "Ainda é cedo para especular sobre intervenções militares", disse.

O governo interino do Quirguistão apelou no domingo para a Rússia, solicitando o envio de tropas para conter a violência no sul. Mas Moscou recusou o pedido, afirmando que a questão é "interna" e apenas reforçou a presença de soldados em sua base no território quirguiz. Ontem, Nikolai Patrushev, chefe do Conselho de Segurança do Kremlin, reafirmou que, no momento, a possibilidade de uma intervenção está descartada.

Desde a queda de Bakiyev, a divisão política no sul do Quirguistão ganhou fortes contornos étnicos. Segundo grupo sectário na região, os usbeques apoiaram o governo formado em abril. Mas os quirguizes mantiveram-se fiéis ao ex-presidente.

Apenas em Osh, principal cidade na região da fronteira com o Usbequistão, estima-se que mais de 120 usbeques tenham sido assassinados. O número de feridos seria de 1.500. Eles teriam sido linchados por grupos de quirguizes.

Um líder comunitário usbeque disse que a cifra é maior. Segundo ele, 200 pessoas foram enterradas sem entrar na contagem oficial. A Cruz Vermelha disse ter visto "cerca de cem" usbeques serem sepultados em um cemitério. O governo interino quirguiz disse ter detido uma pessoa "conhecida" que estaria incitando a violência. Estrangeiros, incluindo afegãos e tajiques, também foram presos. O Quirguistão deveria realizar um referendo constitucional no dia 27. Mas a onda de distúrbios deve levar à suspensão da votação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.