Crise reafirma poder de Putin

Premiê russo mostra que é ele, e não Medvedev, quem manda no país e envia sinal a vizinhos

C.J. Chivers e Ellen Barry, The New York Times, Moscou, O Estadao de S.Paulo

13 de agosto de 2008 | 00h00

O Ocidente, até agora, não conseguiu compreender a ofensiva do prirmeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, contra a Geórgia. O dirigente russo está tomando decisões que podem redesenhar o mapa do Cáucaso em favor de Moscou - ou destruir as relações com as potências ocidentais que o país outrora desejava como parceiros estratégicos. Se havia alguma dúvida, os eventos na Geórgia confirmaram que é Putin - que se tornou primeiro-ministro este ano, depois de oito anos presidente - quem está governando a Rússia e não o seu sucessor, Dimitri Medvedev. E ele, finalmente, encontrou um lenitivo para os insultos sofridos pela Rússia após o colapso da União Soviética. "A Geórgia está sofrendo por tudo o que aconteceu à Rússia nos últimos 20 anos", disse Alexander Rahr, estudioso alemão de política estrangeira e biógrafo do homem forte da Rússia. Nos últimos dias, Putin apareceu na TV em mangas de camisa, em meio aos refugiados na fronteira com a Ossétia do Sul - a imagem de um homem em ação. Medvedev, ao contrário, foi visto sentado atrás da sua escrivaninha em Moscou, dando ordens solenes ao ministro da Defesa. "Todos os discursos liberais que ele proferiu em Berlim e outros lugares foram esquecidos", disse Rahr, que trabalha no Conselho Alemão de Relações Exteriores, referindo-se ao novo presidente russo."Ele está fazendo o jogo arquitetado por Putin." O período que precedeu os eventos na Geórgia revelou um Putin cauteloso e ao mesmo tempo instintivo. Há alguns meses, quando países ocidentais reconheceram a independência do Kosovo, ele respondeu, reconhecendo formalmente duas repúblicas separatistas na Geórgia. No decorrer da última década o governo russo emitiu passaportes para, praticamente, todos os habitantes da Ossétia do Sul, o que agora se tornou a justificativa para as tropas russas se instalarem na fronteira da Geórgia. E, no ano passado, a Rússia suspendeu sua adesão ao Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, que, entre outras coisas, exigia a saída das tropas russas da Geórgia e da Moldávia. ERA PÓS-SOVIÉTICAPutin parece determinado a reafirmar sua influência sobre a Geórgia e a Ucrânia, enquanto envia um claro sinal aos antigos Estados satélites da URSS de que eles devem se guardar de uma aliança política e militar excessivamente estreita com os EUA, na opinião de analistas."Se os EUA e a Europa não pararem a Rússia, acho que isto será o fim da era pós-soviética como a pensávamos", disse Sarah Mendelson, uma cientista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.Muitos especialistas em política externa dizem que uma razão para a Rússia ter respondido com tanto vigor à tentativa da Geórgia de retomar a Ossétia do Sul é que os Estados Unidos e a Europa vinham se afirmando no quintal da Rússia, alienando Moscou com seu apoio ao esforço de Kosovo pela sua independência.Esses especialistas acham que os esforços de George W. Bush para promover a democracia, incluindo o apoio a Saaskashvili como um farol de democracia nas fronteiras da Rússia, podem ter encorajado o presidente georgiano a empreender ações provocativas que causaram uma resposta feroz dos russos.A Rússia também está irritada com os planos americanos de instalar um sistema de defesa antimíssil na Polônia e por iniciativas americanas para encorajar Geórgia e Ucrânia a ingressarem na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).Mesmo para uma Moscou fortalecida, a investida russa sobre a Geórgia envolve riscos substanciais: não só de isolamento global das democracias ocidentais, mas também de provocar a ira de Estados vizinhos da antiga União Soviética e do Pacto de Varsóvia, a perspectiva de atoleiros militares perpétuos em suas fronteiras, e de represálias nacionalistas como as que resultaram de sua repressão na Chechênia.Uma multidão de mais mil pessoas fez uma manifestação anteontem na capital da Letônia, Riga, enquanto centenas se reuniam em Tallin, Estônia, e Vilnius, Lituânia, para pressionar o Ocidente a adotar uma posição mais firme perante Moscou. Líderes na Polônia e na República Checa fizeram eco a esse apelo.O PERDE-GANHA DO CONFLITO NO CÁUCASOQUEM GANHOU Rússia - País mandou um claro recado para o Ocidente: os bons tempos de superpotênciavoltaram. Moscou mostrou eficiência militar e impediu, pelo menos por hora, a entrada de Geórgia e Ucrânia na Otan Vladimir Putin - O primeiro-ministro da Rússia mostrou quem manda de fato no país. Em menos de uma semana, apareceu acenando para a delegação russa nos Jogos Olímpicos, em Pequim, cochichando no ouvido de George W. Bush e dando ordens às tropas na Ossétia do NorteNicolas Sarkozy - Desde Napoleão III, no século 19, vários líderes franceses tentaram restabelecer a relevância da França no cenário internacional. Ao mediar com sucesso um acordo entre Rússia e Geórgia, Sarkozy marcou pontos para a FrançaIrã - A crise fez a diplomacia Ocidental esquecer-se, ao menos momentaneamente, das sanções econômicas e do programa nuclear iraniano. Quanto pior for a relação entre EUA e Rússia, menos consenso haverá sobre o que fazer com Teerã. Mikhail Saakashvili - O presidente da Geórgia fez uma troca: perdeu a Ossétia do Sul e a Abkházia - talvez para sempre - mas ganhou popularidade. O apoio foi importante para driblar a crise econômica e os escândalos de corrupção que ameaçavam seu governo QUEM PERDEUMikhail Saakashvili - Apostou errado no apoio do Ocidente, que não veio. Muitosgeorgianos o responsabilizam pelo fracasso militar. Além disso, popularidade não dura para sempre. Quando a poeira abaixar, terá de lidar com os mesmos problemas de antes: crise econômica e corrupção EUA - Falou grosso, mas ninguém ouviu. Com o Exército americano atolado no Iraque e no Afeganistão, ficou claro que o poder de dissuasão de Washington tem um limite - tanto que foi Sarkozy quem mediou o conflito Dimitri Medvedev - Diante da demonstração de autoridade de Putin, ficou ainda mais evidente o papel de coadjuvante do presidente da Rússia

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