Crise regional fortalece Uribe

No plano interno, nacionalismo impulsiona reeleição

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

Quanto mais o líder venezuelano Hugo Chávez e o equatoriano Rafael Correa criticam Bogotá, mais parece ganhar força, dentro da Colômbia, o projeto político do presidente Álvaro Uribe e seus planos de reeleição. "A opinião pública vê Uribe como o defensor da unidade nacional", explica o analista Gabriel Murillo, da Universidade dos Andes, em Bogotá. "Por isso, conforme a questão do acordo militar com os EUA joga os vizinhos contra a Colômbia, temos no plano interno um nacionalismo exacerbado e o aumento do apoio a Uribe. Até a oposição repeliu prontamente a proposta de aliança feita por Chávez nesta semana."As tensões entre a Colômbia e os países vizinhos voltaram a crescer em julho, quando fontes colombianas fizeram três revelações explosivas. Primeiro, um vídeo em que um membro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) dizia ter financiado a campanha de Correa. Segundo, lança-granadas apreendidos com a guerrilha e adquiridos na Venezuela. Terceiro, o polêmico acordo com os EUA. Na época, o Estado questionou especialistas sobre quem ganharia com as tensões: "Uribe e os esforços para permitir a nova reeleição", disse a jornalista e cientista política colombiana Maria Jimena Duzán. Três semanas mais tarde, o projeto do referendo que pode abrir caminho para o novo mandato de Uribe passou no Senado. Mas apoio popular não é garantia de que a consulta será realizada. Também não basta a aprovação na Câmara dos Representantes. A Corte Constitucional precisa dar o aval para o referendo e o Conselho Eleitoral deve avaliar se houve irregularidades na coleta de assinaturas para pedir discussão do projeto. "As eleições são em maio e há dúvidas sobre se há tempo para fazer a consulta", diz Murillo. O referendo consolidaria uma tendência na região nos últimos anos associada principalmente a líderes do eixo bolivariano. Uribe nunca disse oficialmente que será candidato em 2010, mas dá indícios cada vez mais fortes de que quer governar por mais tempo que o permitido pela atual Constituição do país. Se até agora ele vinha tentando se apresentar como um modelo de líder democrático, segundo analistas, vai ficar mais difícil criticar Chávez. "O modelo de Chávez e o de Uribe são parecidos na forma, embora bem diferentes no conteúdo", diz Carlos Medina, da Universidade Nacional da Colômbia. "Estamos assistindo a uma ascensão de regimes personalistas, que se esforçam para permanecer o máximo tempo possível no poder com a justificativa de que é necessário consolidar seus projetos - o socialismo bolivariano, no caso de Chávez, e a segurança democrática, no de Uribe."

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