Crise ucraniana fez 230 mil refugiados

ONU culpa insegurança no leste da Ucrânia pelo alto número de deslocados e alerta para o risco dos bombardeios para população civil

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / KIEV, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2014 | 02h02

Os quatro meses de guerra no leste da Ucrânia deixaram mais de 230 mil refugiados, dentro e fora do país. O dado foi revelado ontem pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que alertou para os riscos dos combates para a população civil, em especial nas cidades de Donetsk e Luhansk, ainda sob o poder das milícias separatistas pró-Rússia.

De acordo com a ONU, 95 mil pessoas se deslocaram para outras regiões ucranianas, enquanto 130 mil optaram por fugir para a Rússia. Em um mês, os números eram de 54 mil e 110 mil, respectivamente. "O número de pessoas deslocadas, originárias de Donetsk e de Luhansk, aumentou muito desde o início de junho", afirmou Dan McNorton, porta-voz do Acnur. A principal razão é a insegurança, diz a organização.

O Acnur afirma que o número de mortos no conflito chega a mil pessoas, incluindo os 298 passageiros do voo da Malaysia Airlines, abatido por um míssil no dia 19. Estimativas do governo de Kiev, porém, apontam para cerca de 2 mil mortos, enquanto os separatistas garantem que até 10 mil pessoas morreram.

Nesta semana, o Estado constatou o impacto na população civil dos bombardeios que vêm sendo feitos sobre Donetsk, onde 40% da população teria abandonado a cidade. Na segunda-feira, por exemplo, cinco civis morreram em razão da queda de granadas em bairros onde não havia milicianos separatistas.

Voo. O temor de que o conflito se intensifique, com uma possível invasão da cidade de 1 milhão de habitantes, faz com que mais moradores continuem a abandonar suas casas. "Eu já saí e retornei. Agora, estou mais uma vez cogitando sair", disse Serguei Iliuchine, executivo de uma empresa local.

Um dos fatores que estimula a saída de ucranianos da região conflagrada é a presença ostensiva de milicianos armados na cidade. Muitos moradores de Donetsk reclamam de casos de confisco de veículos para "fins revolucionários", assim como de extorsão no comércio local, obrigado a pagar impostos também aos separatistas.

Outra razão do êxodo no leste do país foi a queda do voo MH17, que teve um impacto psicológico na população. A queda do Boeing 777 trouxe à comunidade internacional a exata medida da dificuldade de viver na região de Donbass, sitiada por postos de controle do Exército e de milicianos.

Além de afetar o cotidiano dos moradores, a situação também prejudica a investigação das causas da tragédia. Até ontem, a missão internacional liderada por Holanda e Austrália ainda não havia conseguido autorização dos separatistas para chegar à região do acidente.

De acordo com Michael Bociurkiw, porta-voz da missão da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), enviada após o acidente, entre 25 e 35 policiais podem assumir o controle dos locais da queda da aeronave, mas ainda dependem de um acordo com as milícias pró-Rússia.

O resultado é que a área continua sem proteção, o que prejudica a investigação e a busca dos corpos das vítimas ainda não localizados. Seis peritos, três da Austrália e três da Malásia, já trabalham na investigação. De acordo com o governo holandês, as duas caixas-pretas localizadas, que registram os diálogos dos pilotos e os dados eletrônicos do aparelho, estão em bom estado. Seus cartões de memória também não apresentam "evidências de manipulação".

Os dois gravadores foram transferidos de Kharkiv para Farnborough, na Grã-Bretanha, onde serão analisados. Embora nenhuma conclusão sobre a investigação tenha sido publicada, os governos da Ucrânia e dos EUA afirmam terem provas de que um míssil terra-ar, disparado da região sob controle de separatistas, teria derrubado o avião.

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