Crises externas pressionam Obama

Para especialista, história e geografia moldam muitos conflitos, que não podem ser solucionados pela vontade de Washington

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h03

"Vivemos em um mundo complexo e em um momento desafiador", disse o presidente dos EUA, Barack Obama, na tarde de quarta-feira, após discorrer sobre os principais problemas de sua agenda externa. Vinte e quatro horas mais tarde, a avaliação parecia subestimar o tamanho das dificuldades: um avião com 298 pessoas havia sido derrubado na Ucrânia e tropas israelenses invadiam a Faixa de Gaza.

Os dois eventos agravaram ainda mais o cenário de instabilidade em diferentes regiões do mundo, em uma lista que abrange a guerra civil na Síria, o avanço dos fundamentalistas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), a violência no Afeganistão e as dificuldades dos Estados Unidos de fechar um acordo com o Irã sobre seu programa nuclear.

O secretário de Estado americano, John Kerry, dedicou grande parte de seu tempo e capital político à negociação entre Israel e os palestinos, na esperança de que os dois lados conseguissem estabelecer os termos de uma convivência pacífica. As chances de que isso ocorra ainda na gestão Obama foram implodidas com o confronto iniciado há 14 dias, no qual quase 300 palestinos morreram.

A obtenção de um acordo de longo prazo que impeça o Irã de obter armas nucleares é outra das prioridades da política externa de Obama que enfrenta mais obstáculos do que o desejado por Washington. A data original para a conclusão das conversas era hoje, mas durante a semana ficou evidente que os sete países envolvidos na negociação - Irã, EUA, China, França, Grã-Bretanha, Rússia, além da Alemanha - precisariam de mais tempo.

Na quarta-feira, o presidente disse que ainda havia "diferenças significativas" entre o Irã e a "comunidade internacional". Dois dias depois, o prazo final para conclusão das discussões foi adiado por quatro meses.

Aaron David Miller, especialista em Oriente Médio do Wilson Center, não acredita que haja possibilidade de entendimento entre israelenses e palestinos nos cerca de mil dias que restam do governo Obama. Ele também vê poucas possibilidades do país obter garantias do Irã de que vá renunciar de suas pretensões nucleares enquanto os mulás estiverem no poder.

Na opinião de Miller, a história e a geografia moldam muitos dos grandes conflitos atuais, que não podem ser solucionados por atos de vontade de Washington. "O presidente e os EUA funcionam em um mundo que não tem soluções, tem consequências. O presidente deveria deixar de insistir em certezas e definições amplas", declarou Miller, que trabalhou no Departamento de Estado por 24 anos, grande parte dos quais dedicado a questões relacionadas ao Oriente Médio.

Quatro dias antes de as tensões internacionais aumentarem ainda mais com a derrubada do voo da Malaysia Airlines na Ucrânia, o jornal Wall Street Journal publicou uma reportagem segundo a qual o "arco de instabilidade" que confronta a política externa de Obama é o maior desde o fim dos anos 70 - quando a então União Soviética invadiu o Afeganistão, a revolução islâmica conquistou o Irã e o Sudeste Asiático se refazia após o conflito no Vietnã, de onde os EUA saíram derrotados.

O presidente democrata chegou ao poder em 2009 com a promessa de terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão, iniciadas por George W. Bush em reação aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas ambos os países ainda vivem ondas de instabilidade que tiram a credibilidade de avaliações positivas sobre as invasões lideradas pelos EUA.

O confronto sectário entre sunitas e xiitas se aprofunda no Iraque, que vê o avanço do Isil no norte do país. O grupo radical islâmico também domina parte da Síria, mergulhada há três anos em um conflito que já provocou a morte de pelo menos 110 mil pessoas.

No Afeganistão, a expectativa dos Estados Unidos de rápida transição de poder para um novo presidente foi abalada pelas denúncias de fraude nas eleições concluídas no mês passado. O confronto aberto entre os candidatos Abdullah Abdullah e Ashraf Ghani só foi evitado pela intervenção de Kerry, que viajou a Cabul e obteve um acordo de recontagem de todos os votos sob supervisão internacional. Mas ainda é cedo para dizer se os resultados serão aceitos por ambos os lados.

O fato é que o processo adiará a posse do novo presidente do Afeganistão, inicialmente prevista para agosto, e a definição sobre o futuro das tropas americanas no país. O atual dirigente afegão, Hamid Karzai, se recusou a assinar um acordo bilateral de segurança com o governo de Washington e decidiu deixar a atribuição a seu sucessor.

Sem esse pacto, os Estados Unidos não poderão manter soldados no Afeganistão depois de dezembro, quando as operações de combate terminam oficialmente. Obama gostaria que 9,8 mil militares permanecessem para dar assistência ao Exército do Afeganistão e participar de ações de combate ao terrorismo.

Em discurso no qual apresentou os novos pilares de sua nova política externa, em maio, o presidente americano rejeitou intervenções unilaterais e defendeu a criação de um fundo de US$ 5 bilhões para fortalecer a capacidade de "parceiros" no Oriente Médio e norte da África de combater o terrorismo.

"Desde a 2.ª Guerra, alguns de nossos erros mais custosos vieram não de nossa contenção, mas de nossa disposição de entrar em aventuras militares, sem pensar em suas consequências", disse Obama.

A administração da instabilidade é o "novo normal" da política externa dos EUA, acredita o especialista do Wilson Center. Para ele, os futuros dirigentes americanos serão mais avessos ao risco e tentarão encontrar um equilíbrio entre a retirada dos problemas globais e a tentativa de transformar tudo. "Isso ocorrerá independentemente de o presidente querer ou não. Isso será definido pela natureza do que o mundo é."

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