Crises internas inflam disputa bilateral

Na Venezuela, Chávez pode usar tensão para ofuscar recessão; na Colômbia, Uribe tenta limitar mudanças em transição política delicada

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Visitante. Ao lado de Maradona, Chávez anuncia cisão com Bogotá: 'Estamos juntos até a morte', diz argentino        

 

 

Nem quando a Colômbia bombardeou um acampamento das Farc no Equador, em 2008, ou capturou o guerrilheiro Rodrigo Granda na Venezuela, em 2005, Caracas e Bogotá haviam chegado ao extremo do rompimento total de relações. Segundo analistas, as fotos de um guerrilheiro tomando cerveja numa praia supostamente venezuelana causaram tamanho estrago na relação bilateral por uma série de questões internas.

Do lado venezuelano, o presidente Hugo Chávez aproxima-se das eleições legislativas de 26 de setembro numa situação delicada. A economia vai mal. O PIB caiu 5,8% no primeiro trimestre e a inflação deve ficar acima dos 30%. Três anos após o início da implementação de seu "socialismo do século 21" os investimentos minguaram e agora nem a recuperação do preço do petróleo parece salvar o país da recessão.

"A decisão de romper as relações com a Colômbia lança uma cortina de fumaça sobre todos esses problemas", opina o analista venezuelano Carlos Romero, especialista em política externa. "Essa pode ser uma tentativa chavista de obter apoio para as eleições, apelando ao sentimento nacionalista da população."

Do lado colombiano, a disputa com Caracas é inflada no bojo de uma transição política delicada. Depois de oito anos no poder, Álvaro Uribe, passará o cargo no dia 7 para seu ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos após uma tentativa frustrada de impulsionar uma reforma constitucional que lhe permitiria concorrer ao terceiro mandato.

Arquiteto do ataque ao acampamento das Farc no Equador em 2008, Santos é considerado o herdeiro político de Uribe, mas não era seu candidato favorito e os dois têm exibido suas diferenças. Nas últimas semanas, o ex-ministro tomou medidas indicando que pretendia trilhar um caminho diferente na política externa.

Santos tem prometido dar mais atenção à América Latina e esquecer as diferenças com Chávez, retomando o diálogo com a Venezuela. Na semana passada, convidou o líder venezuelano para assistir à sua posse e escolheu como nova chanceler María Angela Holguín, ex-embaixadora bem vista por Caracas, mas não por Uribe, desde que se demitiu da missão colombiana na ONU por discordar das "nomeações políticas". Dias depois, Bogotá anunciou suas intenções de apresentar na OEA as fotos e vídeos que mostrariam guerrilheiros na Venezuela.

"Santos parece ser o grande perdedor dessa história", afirma Romero. "Dependendo de como a situação evoluir, será complicado para ele insistir no diálogo pragmático com a Venezuela, porque Uribe é bastante popular por aqui e muitos colombianos vão apoiá-lo", concorda o colombiano Gabriel Murillo, da Universidade de Los Andes.

A denúncia da presença das Farc na Venezuela é antiga. Chávez chegou a defender que a guerrilha fosse reconhecida como "força beligerante" em 2008. Uribe, cujo pai foi morto por guerrilheiros, termina seu mandato com aprovação de 80% justamente por restringir as Farc às áreas isoladas e fronteiras. Seu sucessor herdará uma situação confortável no que diz respeito à segurança interna. Mas um tremendo problema externo.

PARA ENTENDER

Comércio já foi afetado

Desde que o líder venezuelano Hugo Chávez congelou as relações comerciais com Bogotá, em julho de 2009, as exportações colombianas para o país vizinho caíram de US$7 bilhões para US$ 3,5 bilhões. Esse é um dos fatores que está limitando o crescimento do PIB colombiano - este ano o país deve crescer 2,5%, quando a média esperada para a América Latina é de 4%. Na Venezuela, a redução do comércio com a Colômbia tem causado problemas no abastecimento de alguns produtos - o país era o segundo parceiro comercial dos venezuelanos depois dos EUA. Com o rompimento de relações diplomáticas, os dois países devem apostar com mais afinco na diversificação de parcerias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.