Crises políticas dão novo protagonismo aos militares na América Latina

Crises políticas dão novo protagonismo aos militares na América Latina

A crescente insatisfação com o status quo e o agravamento da instabilidade política nos países expõem uma contradição da democracia latino-americana

Max Fisher / The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 06h00

Nos últimos meses, a América Latina voltou a presenciar uma cena comum no passado: presidentes diante da TV, falando à nação em um momento de crise, cercados por generais. No Equador, os militares se postaram atrás do presidente Lenín Moreno, quando ele anunciou o estado de emergência. Alguns dias depois, o chileno Sebastián Piñera fez o mesmo com uma dúzia de oficiais ao seu lado. 

Chile e Equador, abalados por protestos, também mobilizaram tropas nas ruas – uma decisão chocante em uma região que trabalhou duro para abandonar sua história de ditaduras militares. No Peru, em outubro, o presidente Martín Vizcarra apareceu ao lado de oficiais militares para declarar que não se renderia à pressão do Congresso liderado pela oposição para ceder o poder. 

Recentemente, na Bolívia, em meio a uma disputada eleição, Evo Morales fez um discurso aos militares pedindo-lhes que “garantissem o território nacional” e mantivessem a unidade política do país.

Analistas dizem que não se trata de um retornou das Forças Armadas ao poder, como nas ditaduras da Guerra Fria. Em vez disso, a crescente insatisfação com o status quo e o agravamento da instabilidade política expõem uma contradição da democracia latino-americana.

Seus militares se retiraram da política após a Guerra Fria, mas mantiveram uma imensa influência. Como as instituições civis permaneceram fracas, os presidentes, às vezes, se apoiam nas Forças Armadas para reforçar sua própria legitimidade. O pacto informal funcionou, mas a crescente inquietação e instabilidade estão levando presidentes a convocarem seus militares com mais frequência, visibilidade e em momentos cada vez mais tensos.

“É um jogo muito perigoso”, disse Aníbal Pérez-Liñán, cientista político da Universidade de Notre Dame. “Se todos os presidentes precisarem fazer isso para sobreviver, uma nova politização das Forças Armadas será inevitável.”

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No Chile, que ontem viveu mais um dia de confrontos entre forças de segurança e manifestantes, o uso de tropas nas ruas provocou mortes e fez ressurgir memórias traumáticas. John Polga-Hecimovich, da Academia Naval dos EUA, diz que os generais, em tempos de paz, “precisavam de um motivo para existir e justificar seus orçamentos, em uma região que realmente não se envolve em guerras interestatais”. 

Líderes civis e militares chegaram a um acordo que Rut Diamint, cientista político da Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, chamou de “novo militarismo”. “Os generais, em vez de se oporem aos governantes democráticos, retornaram ao centro da esfera política como aliados”, disse Diamint.

Os líderes civis deram aos militares a tarefa de policiar, gerir grandes e pequenos projetos de infraestrutura, se apresentando como parceiros das Forças Armadas, que em muitos países latinos têm índices de aprovação mais elevados do que todas as instituições, exceto a Igreja.

A democracia latino-americana se consolidou entre 1990 e 2000, mas em tempos de crise, seus líderes desenvolveram o hábito de se esconder atrás dos generais. Os presidentes de esquerda de Venezuela, Bolívia e Nicarágua se apresentaram como líderes de uma vanguarda revolucionária acossada por inimigos. Os presidentes de direita em Colômbia, Guatemala e Brasil reagiram ao aumento do crime sustentando seus militares como baluartes da virtude e da segurança.

O resultado, segundo Javier Corrales, cientista político do Amherst College, é a constante “militarização das democracias”. A crise global do estado democrático coincide com a frustração com a desigualdade e a corrupção, que continuam problemáticas na América Latina.

Como resultado, a fé nas instituições democráticas diminuiu na região. A polarização política aumentou, aprofundando o senso de muitos cidadãos de que o sistema político é imperfeito. Em grande parte do mundo, incluindo o Chile, isso contribuiu para um sentimento de raiva coletiva e uma crença de que apenas levantes em massa podem trazer mudanças reais. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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