Cristãos coptas temem vitória de islâmicos e adoção da sharia

Para Eriny Wadiee, administradora de empresas de 30 anos, a atual eleição no Egito é "a última tentativa" de impedir "uma tomada islâmica" do poder. Eriny é cristã ortodoxa copta e, como a maior parte de sua comunidade, sente-se cada vez mais ameaçada pelos rumos que a política egípcia vem tomando desde a queda de Hosni Mubarak.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2012 | 03h07

"Quase todo o Parlamento acabou nas mãos de grupos que querem impor a sharia (lei islâmica) no meu país. Agora, se um radical muçulmano chegar à presidência, nós não teremos mais lugar aqui", afirma. Ela decidiu votar em Ahmed Shafiq, último premiê da era Mubarak, tido como o representante do antigo regime nas eleições.

Shafiq promete restituir a ordem no Egito e combater o radicalismo islâmico, discurso que lhe rendeu amplo apoio entre os coptas, que somam mais de 10% da população.

Incerteza. Nos últimos dias, o Estado conversou com vários integrantes e líderes da maior comunidade cristã do Oriente Médio. Em tempos de incerteza, porém, eles relutam em falar abertamente. Um dos poucos que aceitou ser identificado foi Yousef Sidhoum, editor do principal jornal copta, o Watani, fundado em 1968.

"Nossa comunidade está extremamente preocupada", afirma. "A liberdade religiosa já era desrespeitada durante o governo Mubarak. Com partidos radicais islâmicos no poder, a coisa piorou ainda mais."

Templos cristãos são alvos frequentes de pichações e ataques. Em outubro, a Igreja de São Jorge, na Província de Aswan, foi depredada e incendiada por uma multidão de radicais salafistas.

Os coptas praticamente não têm espaço na alta burocracia do Estado, reclama o jornalista, e nenhum dos candidatos à presidência é cristão. Muçulmanos que entram para a Igreja são fortemente discriminados.

Discriminação. A Constituição da era Mubarak - suspensa pouco após a queda do regime - previa a "tolerância religiosa", mas tinha dispositivos que reforçavam a divisão entre muçulmanos e cristãos.

Documentos de identidade egípcios, por exemplo, sempre trazem a religião da pessoa. Um homem muçulmano pode se casar com uma cristã, mas dificilmente uma mulher islâmica consegue autorização de matrimônio com um cristão.

"O Parlamento que temos agora, dominado por grupos islâmicos, não tem a menor condição de lidar com a liberdade religiosa", diz Sidhoum. Desde o início do ano, a Irmandade Muçulmana e os salafistas controlam mais de 70% do Legislativo. Quando o papa Shenouda, líder da Igreja Copta, morreu, em março, parte dos deputados islâmicos rejeitou ficar de pé no Parlamento em respeito ao líder.

O início da revolta contra Mubarak foi marcado por cenas de união entre muçulmanos e cristãos na Praça Tahrir. Coptas faziam cordões de isolamento para proteger islâmicos que rezavam e fiéis das duas religiões viviam juntos, acampados no centro do Cairo. Mas vários incidentes desgastaram o clima de harmonia. / R.S.

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