Teba Sadiq/REUTERS
Teba Sadiq/REUTERS

Cristãos iraquianos, dizimados pela violência islâmica, se preparam para a visita do papa

Líder católico passará por Bagdá, Ur, cidade ligada à figura de Abraão no Antigo Testamento, Erbil, Mosul e Qaraqosh

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 09h00

BAGDÁ - Os cristãos iraquianos estão ocupados limpando igrejas, praticando hinos e se preparando para a missa antes da primeira visita papal ao país, uma viagem de quatro dias no próximo mês que acontecerá apesar da pandemia do coronavírus e dos riscos à segurança.

A comunidade minoritária de várias centenas de milhares foi dizimada primeiro pela ascensão da Al-Qaeda no início dos anos 2000 e mais tarde pelo Estado Islâmico, o grupo extremista que os perseguiu brutalmente e a outras religiões e seitas minoritárias de 2014-2017.

Para muitos dos que permaneceram ou voltaram ao Iraque, onde o culto livre é novamente possível, a visita do Papa Francisco de 5 a 8 de março é um reconhecimento bem-vindo de como eles sofreram por suas crenças.

"Esperamos que, após a visita do papa, a situação dos cristãos melhore", disse Amer Abdelahad, um cristão de Erbil, ao se registrar para assistir a uma missa para 10 mil pessoas no domingo, 7 de março.

“Os cristãos no Iraque sofreram muito nos últimos anos, estão emigrando. O papa virá e verá esta realidade pessoalmente”, acrescentou ele, acompanhado de sua esposa e filha, que também estarão no encontro.

A viagem do líder máximo dos católicos, de 84 anos, foi anunciada em dezembro e abrangerá a capital Bagdá, bem como Ur, cidade ligada à figura de Abraão no Antigo Testamento, e Erbil, Mosul e Qaraqosh na planície de Nínive.

Um duplo ataque suicida em Bagdá matou pelo menos 32 pessoas em janeiro, um lembrete dos riscos contínuos à segurança no Iraque, apesar da derrota do Estado Islâmico e uma redução geral da violência militante. O papa condenou o bombardeio.

O país também continua sendo constantemente bombardeado, principalmente na fortificada área da Zona Verde, que hospeda soldados, diplomatas e contratados dos EUA. Autoridades americanas e iraquianas dizem que os ataques têm apoio do Irã. Na quinta-feira, 25, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ordenou um ataque aéreo contra pontos de milícias apoiadas pelo Irã na Síria, após disparos de foguetes contra as forças americanas no Iraque nos últimos dias.

Embora alguns dos cristãos do Iraque, incluindo católicos e ortodoxos, tenham voltado para as casas de onde fugiram durante a turbulência das últimas duas décadas, outros prevêem mais problemas e estão procurando sair.

Uma missa única

O padre Dankha Joola, um dos principais organizadores da visita a Erbil, disse que mais de 8 mil pessoas já se inscreveram para a missa. Seu maior desafio é implementar o distanciamento social no estádio ao ar livre onde o papa conduzirá a cerimônia. O local tem capacidade para cerca de 30 mil pessoas, mas o número está limitado a um terço disso devido às restrições da pandemia.

Daniella Rafiq é uma dos mais de 200 voluntários que ajudam Joola. Para ela, a visita é uma oportunidade única na vida de ver o papa. “Nos últimos anos, sempre que havia um encontro com o papa em diferentes países, especialmente com jovens, ficávamos privados”, disse ela, referindo-se às dificuldades que ela e outros iraquianos enfrentaram para obter vistos para viajar no passado.

O padre Naswhan Cola, que está organizando o serviço religioso, disse que será único, com orações em italiano e uma orquestra e coro de cerca de 80 voluntários locais cantando hinos em árabe e siríaco, a língua neo-aramaica falada pelos cristãos no norte do Iraque.

Antes da missa em Erbil, o Papa Francisco visitará a cidade de Mosul e a cidade vizinha de Qaraqosh, ambas sob ocupação do Estado Islâmico por três anos.

A outrora próspera comunidade cristã de Mosul está hoje reduzida a não mais de 70 famílias, enquanto em Qaraqosh um número relativamente grande voltou, em parte graças ao papel da igreja em liderar os esforços de reconstrução e mobilizar os cristãos.

Dezenas de voluntários ficaram orgulhosos com a perspectiva de receber o papa na Grande Imaculada Igreja, a maior do Iraque, que também serviu de campo de tiro para os combatentes do Estado Islâmico antes de ser devastada pelo fogo.

Alguns limparam o chão de pedra, parando apenas para dançar as canções cristãs que ressoavam pelo cavernoso edifício de pedra cinza, ainda virtualmente vazio desde que foi restaurado.

"A visita do papa não é apenas para os cristãos do Iraque, mas para todo o país", disse o padre Francis, que estava ajudando a colocar pôsteres do papa nas ruas de Qaraqosh. /REUTERS

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