Atul Loke for The New York Times
Atul Loke for The New York Times

Cristãos são alvo de intolerância religiosa e perseguição na Índia

Agressores alegam que evangélicos estão convertendo indianos, o que novas leis aprovadas em série por nacionalistas hindus em todo o país proíbem

Jeffrey Gettleman e Suhasini Raj / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2022 | 05h00

INDORE, ÍNDIA - Os cristãos estavam no meio de um hino quando a multidão chutou a porta. Um enxame de homens vestidos de amarelo entrou. Eles pularam no palco e gritaram slogans da supremacia hindu. Socaram pastores na cabeça, jogaram mulheres no chão, fazendo com que crianças apavoradas corressem para debaixo de suas cadeiras.

“Eles continuaram nos batendo, arrancando cabelos”, disse Manish David, um dos pastores agredidos. “Eles gritaram: ‘O que você está fazendo aqui? Que músicas você está cantando? O que você está tentando fazer?’”

O ataque aconteceu na manhã de 26 de janeiro no centro cristão Satprakashan Sanchar Kendra, na cidade de Indore, na  Índia. A polícia chegou logo, mas os policiais não tocaram nos agressores. Em vez disso, prenderam os pastores e outros presbíteros da igreja, que ainda estavam tontos por terem levado socos na cabeça. Os cristãos foram acusados de violar uma lei recém-criada que tenta conter as conversões religiosas, uma das muitas medidas que geraram uma onda de violência contra os cristãos indianos.

O pastor David não estava convertendo ninguém, disse ele. Mas o ataque organizado contra sua igreja foi impulsionado por uma crescente histeria anticristã que está se espalhando pela vasta nação, lar de uma das maiores e mais antigas comunidades cristãs da Ásia, com mais de 30 milhões de adeptos.

Vigilantes anticristãos estão varrendo vilas, invadindo igrejas, queimando livros, atacando escolas e fiéis. Em muitos casos, a polícia e membros do partido governante da Índia os estão ajudando, revelam documentos do governo e dezenas de entrevistas. Igreja após igreja, o próprio ato de adoração se tornou perigoso, apesar das proteções constitucionais para a liberdade de religião. Apenas em 2021, foram mais de 400 ataques graves a cristãos no país, segundo a Comissão de Liberdade Religiosa da Irmandade Evangélica da Índia (EFI).

Há duas semanas, o governo da Índia se recusou a renovar a licença de financiamento estrangeiro para a instituição de caridade fundada por Madre Teresa de Calcutá, e congelou as contas do grupo Missionárias da Caridade (ou Missionaries of Charity, em inglês). O grupo tem milhares de freiras supervisionando projetos como lares para crianças abandonadas, escolas e clínicas. No dia de Natal, o Ministério do Interior da Índia anunciou que não renovou o registro devido a "informações adversas". Os hindus há muito tempo acusam a instituição de caridade de usar seus programas para converter pessoas ao cristianismo.

A população católica da Índia é a segunda maior entre os países asiáticos, atrás das Filipinas, com cerca de 18 milhões de pessoas. No entanto, os cristãos representam uma minoria de cerca de 2% da população indiana, que é de cerca de 1,4 bilhão.

Para muitos extremistas hindus, os ataques são justificados – um meio de prevenir conversões religiosas. Para eles, a possibilidade de que alguns indianos, mesmo um número pequeno, troquem o hinduísmo pelo cristianismo é uma ameaça ao sonho de transformar a Índia em uma nação hindu pura.

Muitos cristãos ficaram com tanto medo que tentam se passar por hindus para se proteger. “Eu simplesmente não entendo”, disse Abhishek Ninama, um fazendeiro cristão, que olhou com desânimo para uma igreja rural destruída neste ano. “O que é que fazemos que os faz nos odiar tanto?”

A pressão é maior no centro e no norte da Índia, onde o partido governante do primeiro-ministro Narendra Modi domina e grupos cristãos evangélicos estão fazendo incursões entre os hindus de castas inferiores, embora discretamente. Os pastores realizam cerimônias clandestinas à noite. Conduzem batismos secretos. Distribuem Bíblias em áudio que parecem pequenos rádios transistores para que fazendeiros analfabetos possam ouvir disfarçadamente as escrituras enquanto aram seus campos.

Desde sua independência em 1947, a Índia tem sido a maior experiência de democracia do mundo. Às vezes, a violência comunitária, muitas vezes entre hindus e muçulmanos, tem testado seu compromisso com o pluralismo religioso.

A questão das conversões do hinduísmo ao cristianismo é um assunto especialmente delicado, que incomoda o país há anos e até atraiu Jawaharlal Nehru, o primeiro premiê da Índia, um feroz defensor dos ideais seculares da Índia. Nos últimos anos, Modi e seu partido nacionalista hindu puxaram a Índia para a direita, longe do que muitos indianos veem como a fundação multicultural que Nehru construiu. Os crescentes ataques aos cristãos são parte de uma mudança mais ampla, na qual as minorias se sentem menos seguras.

Modi está enfrentando uma pressão internacional crescente para conter seus apoiadores e parar a perseguição de muçulmanos e cristãos. A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional, um órgão governamental, recomendou que a Índia fosse colocada em sua lista por “graves violações da liberdade religiosa” – uma acusação que o governo Modi negou veementemente.

Investidas contra os cristãos

Os ataques contra os cristãos mais do que dobraram desde 2014, segundo a Evangelical Fellowship of India. Advogados e ativistas nacionalistas hindus entraram com várias queixas contra instituições de caridade cristãs por meio de uma organização chamada Legal Rights Observatory, privando-os de fundos e fechando muitos deles.

Em toda a Índia, as forças anticristãs estão ficando mais fortes a cada dia, e têm muitos rostos, incluindo um exército de advogados e escriturários de colarinho branco que registram queixas legais contra organizações cristãs. Eles também planejam boicotes sociais contra cristãos isolados em aldeias remotas.

Os nacionalistas hindus bloquearam os cristãos de várias comunidades, impediram-nos de visitar as casas dos hindus e condenaram os aldeões ao ostracismo por acreditarem em Jesus. No ano passado, em uma cidade, eles impediram que as pessoas se reunissem no Natal.

“Os cristãos estão sendo reprimidos, discriminados e perseguidos em níveis crescentes como nunca antes na Índia”, disse Matias Perttula, o diretor de defesa da International Christian Concern, um importante grupo antiperseguição. “E os agressores saem livres todas as vezes.” 

‘Esses crentes’

Dilip Chouhan está sentado em um escritório atrás de uma copiadora na pequena cidade indiana de Alirajpur, com os braços cruzados sobre o peito. Acima dele está um pôster de um guerreiro tribal. Chouhan faz parte de uma rede crescente de anticristãos. Só a menção de cristãos faz seu rosto se enrugar, como se ele tivesse lambido um limão. “Esses ‘crentes’”, disse ele, usando o termo ironicamente, “eles prometem todos os tipos de coisas – motocicletas, TVs, geladeiras. Eles trabalham com superstições. Eles enganam as pessoas.”

Chouhan mora no Estado central de Madhya Pradesh, que neste ano aprovou uma lei anticonversão que prevê penas de prisão de até 10 anos para qualquer pessoa considerada culpada de liderar conversões ilegais, que são vagamente definidas. Estimulado pela legislação, Chouhan, de 35 anos, e vários outros jovens nacionalistas hindus invadiram uma série de igrejas. Algumas das batidas foram transmitidas no noticiário, com direito a Chouhan invadindo um templo com uma espingarda nas costas.

Chouhan diz que seu grupo, que usa o WhatsApp para planejar seus ataques aos próximos cultos religiosos, tem 5 mil membros. É parte de uma constelação de organizações nacionalistas hindus em todo o país, incluindo o Rashtriya Swayamsevak Sangh, ou R.S.S., bem como muitos membros do Partido Bharatiya Janata, o BJP, de Narendra Modi. “O B.J.P. está realmente interessado neste assunto”, disse Gaurav Tiwari, um líder da juventude do partido em Madhya Pradesh.

Seus camaradas de partido no Estado vizinho de Chhattisgarh conduziram recentemente várias marchas anticristãs durante as quais gritavam: “Conversores! Vamos vencê-los a sapatadas!” Em setembro, eles fizeram exatamente isso: uma multidão de jovens invadiu uma delegacia de polícia de Chhattisgarh, atiraram sapatos contra dois pastores e os espancaram – bem na frente dos policiais. “Eu bati naquele pastor cinco ou seis vezes”, gabou-se Rahul Rao, um empreiteiro de 34 anos e oficial titular da célula jovem do BJP. “Foi extremamente satisfatório.”

Acusações forjadas são comuns, dizem os líderes cristãos. Grupos de direitos humanos estimam que mais de 100 foram presos por engano este ano. E os cristãos têm poucos aliados. As leis anticonversão são populares, parte do manual do BJP para usar a religião como uma força para polarizar as massas e ganhar votos da maioria hindu, que representa cerca de 80% da população. “Se alguém quiser se converter, não há problema”, disse Sudhanshu Trivedi, porta-voz do partido de Modi. “Mas por que só os mais analfabetos e pobres se convertem? Você pode me dizer que alguém que não consegue nem mesmo escrever o ‘J’ de Jesus começa a acreditar nisso? Como assim?”

Pelo menos uma dúzia de Estados indianos, com uma população combinada de mais de 700 milhões de pessoas – metade da população do país – aprovaram leis, emitiram ordens judiciais ou usam medidas que restringem as conversões religiosas. Essas iniciativas também estão sendo usadas para perseguir muçulmanos, em menor grau. Várias dezenas de muçulmanos foram presos sob a acusação de forçar suas esposas a se converter ao islamismo.

Legislação anti-cristã

As novas leis não mencionam o cristianismo ou o islamismo explicitamente, mas foram claramente escritas para ter como alvo as pessoas que se convertem a uma religião diferente do hinduísmo, ao mesmo tempo que isentam as pessoas que “se reconvertem” ao hinduísmo. 

As medidas proíbem as conversões feitas com força, fraude ou incentivos. Alguns Estados determinam que qualquer pessoa que pretenda se converter deve solicitar permissão do governo com 60 dias de antecedência. E as leis costumam ser escritas de forma tão vaga que quase todas as atividades da igreja podem ser consideradas ilegais.

A lei deixou a vida perigosa para muitos pastores. Um pregador evangélico em Uttar Pradesh que, como muitos outros indianos, tem um único nome – Balram – disse que ele e um parente foram presos em agosto de 2020 por suspeita de conversões não autorizadas. O pastor Balram disse que tudo o que eles estavam fazendo no momento da prisão era tomar chá.

Na delegacia, disse ele, os policiais o socaram na virilha, bateram nele com varas de madeira e arrancaram mechas de seu cabelo. Ele disse que um policial usava uma pulseira de metal pesado e ficava batendo na cabeça de seu parente. “A cabeça dele ainda dói”, disse o pastor Balram.

No entanto, Vinod Patil, um pregador pentecostal em Madhya Pradesh, não desiste. Ele sai de casa silenciosamente e nunca em grupo. Ele pula em uma pequena motocicleta Honda e passa por pequenas cidades e campos de trigo, a Bíblia enfiada dentro da jaqueta. Ele verifica constantemente seus espelhos para se certificar de que não está sendo seguido. “A Constituição nos dá o direito de pregar abertamente”, disse ele. “Ainda assim, você tem que ter cuidado.”

Extremistas hindus alertaram o pastor Patil que o matariam se o pegassem pregando. Então, no ano passado, ele fechou sua Igreja Pentecostal Living Hope, que disse ter 400 membros, e mudou para pequenos serviços clandestinos, geralmente à noite. “Antes, quando tínhamos um problema, íamos à polícia”, disse. “Agora, os anticristãos têm o governo com eles. Os anticristãos estão por toda parte.”

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