Cristina acusa jornais de aliança com ditadura

Denúncia, que será levada à Justiça, é vista como pretexto do governo para tomar o controle da principal indústria argentina de papel de jornal

Ariel Palacios CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou ontem à noite que apresentará à Justiça uma investigação sobre a venda da empresa Papel Prensa, que denuncia a compra ilegal de ações por parte dos jornais Clarín e La Nación. Segundo a presidente, os dois jornais foram cúmplices da ditadura militar (1976-83)que obrigou os herdeiros do banqueiro David Graiver, a vender as ações durante sessões de torturas.

Desta forma, o governo acusa os dois principais jornais da Argentina de graves violações dos Direitos Humanos.

A presidente também anunciou que enviará um projeto de lei ao Congresso declarando de interesse público nacional a produção de pasta de celulose para papel de jornal, assim como sua distribuição e comercialização. A Papel Prensa é a única fabricante do produto no país e é responsável por 60% do abastecimento, atendendo a 130 jornais. O plano é fixar preços e quantidade de produção.

Poucas horas antes de fazer o anúncio, o gabinete de Cristina afirmou que houve um acordo "cívico-militar" para a apropriação da empresa. Ontem pela manhã, o Clarín e o La Nación publicaram uma longa carta na qual indicam que o governo Kirchner "inventou" uma história para tentar se apropriar da Papel Prensa.

Os jornais sustentam que o governo Kirchner utiliza a técnica de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, que dizia "mente, mente, que algo ficará".Segundo os jornais, Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, pretendem ficar com o controle do papel de jornal, insumo que consideram "vital para a imprensa livre".

Citando testemunhas, os jornais afirmam que os herdeiros do banqueiro realizaram a venda em condições normais em novembro de 1976 e o sequestro e a tortura ocorreram seis meses depois, em 1977.

A presidente - que está em pé de guerra com os principais meios de comunicação do país há dois anos - quer levar os dois jornais à Justiça para remover as ações que ambas empresas possuem da Papel Prensa. O Clarín possui 49% das ações; o Estado argentino é dono de 27,46%; e o La Nación, de 22,49%. O 1,05% restante está nas mãos de pequenos investidores.

Caso o governo consiga anular a operação nos tribunais, a viúva de Graiver poderia pleitear na Justiça a devolução das ações. Fontes do mercado indicaram ao Estado que diversos empresários alinhados com o governo estão interessados na futura compra da Papel Prensa.

Desconfiança. "A história da Papel Prensa volta a aparecer no marco do confronto do governo com o Clarín, jornal com o qual os Kirchners tiveram muitos anos de relação cordial", afirmou ao Estado o historiador Marcelo Larraquy. O especialista disse que daqui para a frente o confronto do casal Kirchner com a imprensa continuará com "choques frequentes".

Segundo Larraquy, é estranho que desde a volta da democracia até agora não tivessem sido feitas denúncias dessas irregularidades.

CERCO À MÍDIA

Lei de Mídia

Medida faz duras restrições à atuação de empresas de meios de comunicação críticos ao governo. Entre as medidas, a nova lei impede que uma empresa tenha de forma simultânea um canal de TV aberta e um canal de TV a cabo.

Ações da Receita Federal

A Receita Federal realizou blitzes na sede do "Clarín", além das casas de seus principais executivos. No entanto, nenhuma ação legal foi tomada.

Reação da SIP

Para o presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Alejandro Aguirre, o governo argentino está buscando controlar os meios de comunicação independentes do país.

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