Cristina aposta em facção liderada por seu filho para fortalecer kirchnerismo

Eleições argentinas. Com desistência da presidente de disputar qualquer cargo nas eleições de outubro, La Cámpora - ala jovemda Frente Para Vitória liderada por Máximo Kirchner - ganha espaço e seus militantes concorrerão a postos-chave no Congresso

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2015 | 02h05

Após 26 anos consecutivos como deputada, senadora e presidente, Cristina Kirchner decidiu não concorrer a outro cargo, algo confirmado na madrugada de ontem após meses de rumores, quando foi conhecido o registro de candidaturas para outubro. A líder argentina colocou na disputa por postos vitais jovens ligados ao grupo La Cámpora, base de sua militância, e marginou representantes do peronismo tradicional.

Embora não seja a mais relevante politicamente, a indicação carregada de maior simbolismo é a de Máximo Kirchner, filho de Néstor e Cristina que chegou a ser cogitado em uma chapa como vice-presidente ou governador. Ele concorrerá a deputado nacional pela Província de Santa Cruz, berço político da família e palco de investigações sobre o seu patrimônio.

A principal delas envolve o caso Hotesur, hotel de luxo dos Kirchners no sul do país onde a Justiça vê indícios de lavagem de dinheiro - quartos foram ocupados por dois anos seguidos apenas no papel.

Envolvida em escândalos como esse, cogitava-se de que Cristina buscasse vaga como deputada ou integrante do Parlasul, para garantir imunidade. "A razão para não disputar nada é que o kirchnerismo é o favorito para a eleição. E em caso de vitória, terá nos postos chave do Parlamento homens de confiança dela", afirma Carlos de Angelis, cientista político da Universidade de Buenos Aires.

O eleitor escolhe por listas. O número de parlamentares de uma corrente tende a ser proporcional à votação do candidato a presidente em cada província. No alto da relação de deputados na Província de Buenos Aires e no Distrito Federal, Cristina colocou o secretário-geral da Presidência, Wado de Pedro, e o ministro da Economia, Axel Kicillof, ambos da Cámpora.

A aposta de Cristina está condicionada à vitória da chapa presidencial governista, com o peronista moderado Daniel Scioli, e o ultrakirchnerista Carlos Zannini, um dos ideólogos do movimento iniciado por Néstor em 2003. Zannini será o presidente do Senado em caso de triunfo.

"O kirchnerismo duro, a exceção de Cristina, tem péssimos candidatos. Eles só são eleitos porque compõem listas, pelo poder de atrair eleitores dos peronistas tradicionais como Scioli", avalia Martín Rodríguez, ex-kirchnerista que escreveu o livro Orden y Progresismo, em que detalha as bases ideológicas e estratégias do movimento. "Cristina colocou um vice de extrema confiança ao lado de Scioli e jovens aliados no Parlamento. Controlará a continuidade de fora se vencer", reforça.

O principal rival de Scioli é o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. Ele aparece em boa posição nas pesquisas (32,2%, ante 33,3% de Scioli, segundo a consultoria M&F) mas sofre críticas por ter rejeitado uma aliança com Sergio Massa (13,8%).

Scioli disputará as primárias marcadas para 9 de agosto sozinho contra uma oposição dividida. "Scioli tende ser o primeiro colocado nas prévias e, a partir daí, levar os votos daqueles que apoiam quem está na frente", diz De Angelis. Macri aposta em uma polarização entre os que aprovam ou não o governo, esperando levar todos de Massa.

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