Cristina assume poder sem a sombra de Kirchner

Presidente argentina deixou a pequena Província de Río Gallegos para, ao lado do marido, controlar todo o país

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h06

Nunca uma mulher fora reconduzida à presidência de um país latino-americano pela reeleição. Cristina Elisabet Fernández de Kirchner, nascida em 1953 na cidade de La Plata, Província de Buenos Aires, teve essa oportunidade na noite de ontem.

Seus pais, após vários anos de intensas brigas domésticas, separaram-se. Sua mãe, Ofélia Wilhelm, era uma militante sindical peronista que trabalhava na Receita Federal. Seu pai, Eduardo Fernández, era um motorista de ônibus visceralmente anti-peronista. A relação de Cristina com seu pai foi de frieza até sua morte. A mãe, com influências nos "barrabravas" (hooligans) do time Gimnasia y Esgrima, é figura constante na residência presidencial de Olivos.

A jovem Cristina entrou na Universidade de La Plata em 1970. Fez um ano de Psicologia e depois passou para o Direito. Ali, em 1974, conheceu um desajeitado estudante veterano, proveniente da província de Santa Cruz, que era estrábico e tinha língua presa. Ele possuía um senso de humor que lhe chamou a atenção. O jovem, Néstor Kirchner, viraria seu marido menos de dois anos depois.

Poucos meses depois do casamento, em 1976, um golpe militar instaurou a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul. Nestor e Cristina, embora tivessem uma militância política mínima (eram integrantes, sem importância hierárquica, da Juventude Peronista) optaram por mudar para a pacata Río Gallegos, Santa Cruz, nos confins meridionais da Argentina, onde a repressão da ditadura era suave.

Ali, durante o regime militar enriqueceram executando hipotecas de pessoas que haviam falido por causa da política econômica do ministro José Alfredo Martinez de Hoz. "Para fazer política é primeiro necessário juntar dinheiro", dizia o casal aos amigos.

Em 1987 Kirchner foi eleito prefeito de Río Gallegos, com uma margem de apenas 50 votos. Essa vitória permitiu que Cristina fosse eleita deputada estadual em 1989. Em 1991 seu marido foi eleito governador. Em 1995, enquanto Kirchner era reeleito para o governo, Cristina - representando sua província "adotiva", Santa Cruz - entrou no Senado. Ali ficou conhecida por seu estilo combativo, vaidade e por não levar desaforos para casa.

Em 2003, o então presidente provisório Eduardo Duhalde escolheu Kirchner para ser seu candidato. Kirchner foi empossado presidente e Cristina tornou-se primeira-dama, embora fizesse questão se ser chamada "primeira-cidadã". Quatro anos depois Kirchner decidiu que sua mulher o sucederia na presidência, fato inédito na História da democracia ocidental.

Cristina foi eleita com 45% dos votos em 2007. A opinião pública e os analistas afirmavam que ocorreria uma "presidência bicéfala", com o casal dividindo o poder. No entanto, rapidamente ficou claro que Kirchner era o verdadeiro poder no governo de sua mulher.

Nos três anos seguintes tudo indicava que o candidato à sucessão em 2011 seria Kirchner. Mas, este morreu em outubro de 2010, vítima de um ataque cardíaco. A presidente, viúva, tornou-se candidata de si própria à sucessão e venceu com 54% dos votos. Os analistas afirmam que começa uma fase de "hiper-presidencialismo".

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